

A Melhor Notificação é o Barulho do Mar
Sobre a tecnologia que nos leva e a presença que nos faz ficar.
CRÔNICATECNOLOGIA
Crônica por Marcos Trestin | Trestto
2/3/20264 min read


Em Viña del Mar, sentamos juntos na areia fria do fim de tarde, eu e minha esposa, como quem desliga o mundo por alguns minutos sem avisar ninguém. O mar se abria à nossa frente com a paciência de um monge antigo, repetindo ondas largas, meditativas. As gaivotas riscavam o céu com gritos agudos, brigando por restos invisíveis e lembrando que até a desordem tem método. Ao fundo, quase escondida entre árvores e prédios, uma pequena igreja se denunciava apenas pelo sino, um toque breve, metálico, atravessando o vento como uma notificação que vale a pena ouvir.
Entre nós, a mochila virou mesa. Tirei dela uma garrafa de Sauvignon Blanc do Valle de Casablanca. Enquanto o mar seguia analógico, infinito, meu relógio inteligente vibrava no pulso avisando que eu deveria me levantar, caminhar, bater metas. Ignorei. Abrir o vinho ali, sentado na areia, foi um pequeno ato de rebeldia doméstica. O estalo da rolha competiu com o som das ondas, perdeu, claro. O vinho saiu vivo, cortante, cheirando a lima, ervas frescas e pedra molhada, como se tivesse sido programado para aquele cenário. Servi em copos simples, e brindamos sem registrar nada. Nenhuma câmera levantada. Nenhuma legenda pensada.
As machas a la parmesana vieram logo depois, improvisadas, ainda quentes. O queijo borbulhava, dourado, segurando o mar dentro de conchas abertas como pequenos altares. Comemos devagar, dividindo garfadas, enquanto um aplicativo de clima no celular insistia em prever rajadas de vento com gráficos coloridos. Minha esposa olhou para a tela, depois para o horizonte, e riu. O Pacífico já tinha avisado, não precisava de atualização.
Uma inteligência artificial do telefone sugeriu, com entusiasmo artificial, outros restaurantes melhor avaliados nas proximidades. Recomendava vistas panorâmicas, playlists certas, experiências otimizadas. Nenhuma delas incluía sentar na areia, sentir o frio subir pelos pés ou disputar espaço com uma gaivota curiosa que se aproximou, avaliando se aquele vinho tinha potencial gastronômico para ela também. Mostrei a sugestão para minha esposa. Concordamos em silêncio: nenhum algoritmo entende quando o foco é simplesmente estar.
O vento aumentou, como previsto pelos satélites, sensores e modelos matemáticos, mas chegou com atraso poético. Ela puxou o casaco, encostou no meu ombro, e ficamos ali, olhando o sol descer lentamente, em resolução impossível para qualquer tela. O sino tocou outra vez, mais distante. O relógio vibrou de novo. Ignorei. O vinho, agora mais aberto, parecia ainda mais salino, quase marinho, como se estivesse aprendendo com o Pacífico em tempo real.
Pensei que talvez o futuro precise disso: mais tecnologia para nos levar e menos tecnologia depois de chegar. Entre o mar que tudo observa, o vinho que aproxima e a fé discreta que soa ao longe, seguimos sentados, juntos, enquanto o mundo digital aguardava, educadamente, do lado de fora.
Machas a la Parmesana
🍽️ Restaurantes Recomendados
Castillo del Mar
Clássico absoluto à beira mar. Especialista em pescados e mariscos, com vista direta para o Pacífico. Ideal para machas, congrio e ostras, acompanhado do som constante das ondas.
San Marco
Tradicional, elegante sem excessos. Cozinha focada em frutos do mar frescos, serviço atento e atmosfera que combina bem com um branco bem escolhido e conversa longa.
La Concepción
Um pouco acima, em Valparaíso, mas imperdível. Vista ampla do oceano, pratos autorais com influência local e excelente carta de vinhos. Ótimo para um almoço que vira tarde.
🍷 Vinhos Recomendados
Sauvignon Blanc – Valle de Casablanca (Chile)
Perfil: cítrico, herbal, mineral, acidez vibrante.
Por que escolher: é praticamente um vinho oceânico, nasce perto do mar e entende mariscos, vento e salinidade como poucos.
Sauvignon Blanc – Valle de San Antonio / Leyda (Chile)
Perfil: mais tenso e salino, com notas de lima, toranja e pedra molhada.
Por que escolher: perfeito para machas a la parmesana, pois corta o queijo e amplia o sabor do mar.
Chardonnay de clima frio – Casablanca ou Limarí (Chile)
Perfil: frutas brancas, leve cremosidade, acidez equilibrada, às vezes toque mineral.
Por que escolher: excelente alternativa se o prato tiver mais gordura ou preparo ao forno, mantendo elegância sem pesar.






