Reprodução / Cris Contra el Cáncer

Pela primeira vez, câncer de pâncreas desaparece sem resistência em testes de laboratório

Avanço publicado na PNAS mostra que atacar o câncer de pâncreas em múltiplos pontos da via KRAS pode eliminar tumores de forma duradoura e com baixa toxicidade em animais.

SAÚDE

Por Redação InfoDot

1/30/20264 min read

O progresso científico raramente acontece de forma linear. Em áreas marcadas por décadas de frustração, pequenos avanços costumam preceder grandes rupturas. Foi exatamente esse tipo de ruptura que pesquisadores espanhóis relataram ao demonstrar, em modelos animais, a eliminação completa e permanente do câncer de pâncreas.

A descoberta é resultado de um estudo conduzido pelo Grupo de Oncologia Experimental do CNIO, o Centro Nacional de Pesquisa Oncológica da Espanha, sob liderança de Mariano Barbacid. A equipe conseguiu erradicar tumores pancreáticos em camundongos utilizando uma estratégia combinada de três medicamentos, sem observar toxicidade relevante nem surgimento de resistência ao tratamento. “Pela primeira vez, conseguimos uma resposta completa, duradoura e de baixa toxicidade contra o câncer pancreático em modelos experimentais”, afirma Barbacid.

Os achados foram publicados na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) e rapidamente chamaram atenção da comunidade internacional. O impacto potencial é expressivo, sobretudo diante da gravidade desse tipo de câncer. Na Espanha, mais de 10.300 novos casos de câncer de pâncreas são diagnosticados anualmente, e a taxa de sobrevida em cinco anos permanece abaixo de 10%.

O trabalho tem como primeiras autoras Vasiliki Liaki e Sara Barrambana, com Carmen Guerra como coautora principal. O financiamento veio da CRIS Cancer Foundation, com apoio adicional de recursos espanhóis e europeus, reforçando o papel do investimento sustentado em ciência de base para enfrentar doenças historicamente consideradas quase intratáveis.

Durante décadas, o tratamento do câncer pancreático avançou pouco além da quimioterapia tradicional. Apenas em 2021 surgiram os primeiros medicamentos direcionados ao KRAS, um oncogene alterado em cerca de 90% dos pacientes. Ainda assim, os benefícios clínicos se mostraram limitados, já que os tumores costumam desenvolver resistência em poucos meses.

Foi justamente essa barreira que orientou a estratégia do grupo do CNIO, um dos principais centros de pesquisa oncológica da Europa. Em vez de bloquear um único ponto da via molecular do KRAS, os cientistas optaram por neutralizar simultaneamente três componentes críticos desse sistema de sinalização. A lógica é clara: quanto mais frentes são bloqueadas ao mesmo tempo, menor a capacidade de adaptação do tumor.

Antes de avançar para os testes farmacológicos, a equipe promoveu a eliminação genética desses três elementos-chave em modelos animais. O resultado foi a regressão total e permanente dos tumores pancreáticos, um feito inédito nesse contexto experimental.

Para replicar esse efeito por meio de medicamentos, os pesquisadores desenharam uma terapia tripla composta por daraxonrasib, um inibidor experimental de KRAS, afatinib, já aprovado para determinados tipos de câncer de pulmão, e SD36, um degradador de proteínas direcionado ao STAT3. A combinação foi avaliada em três modelos distintos de adenocarcinoma ductal pancreático, a forma mais comum e letal da doença. Em todos eles, houve regressão tumoral sustentada, sem sinais relevantes de toxicidade e, sobretudo, sem aparecimento de resistência.

Apesar do entusiasmo gerado pelos resultados, Barbacid adota um tom cauteloso em relação aos próximos passos. “Ainda não estamos em condições de realizar ensaios clínicos com a terapia tripla”, ressalta. Segundo ele, a transição para estudos em humanos exigirá um processo longo e rigoroso, envolvendo otimização de doses, análise detalhada de interações medicamentosas e comprovação de segurança clínica.

Além disso, permanece o desafio de compreender melhor a heterogeneidade do câncer de pâncreas. Será necessário identificar quais subgrupos de pacientes podem realmente se beneficiar dessa abordagem e antecipar eventuais mecanismos de resistência que ainda não se manifestaram nos modelos animais. Somente após superar essas etapas será possível planejar ensaios clínicos de forma responsável.

Mesmo com essas ressalvas, o estudo sinaliza uma inflexão importante em um campo marcado por avanços mínimos ao longo de décadas. Pela primeira vez, uma estratégia racional de terapias combinadas demonstra que a resistência tumoral pode ser contida de maneira sustentável, abrindo caminho para uma redefinição das abordagens futuras contra o câncer de pâncreas.

Quando a ciência encontra novas formas de contornar antigos limites, ela não entrega promessas imediatas, mas redefine o horizonte do que antes parecia impossível.

Leia mais...