

Plano de Elon Musk prevê megaconstelação orbital para computação de IA com até 1 milhão de satélites
Uma proposta enviada à FCC (a Anatel dos EUA) projeta uma constelação inédita de satélites dedicados à computação de IA, alimentados por energia solar e integrados à rede Starlink.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIALTECNOLOGIA
Por Redação InfoDot
2/3/20265 min read
A fronteira da computação sempre avançou ao ritmo da ambição humana. Quando a infraestrutura em terra começa a impor limites físicos, energéticos e ambientais, novas rotas passam a ser consideradas. É nesse contexto que a SpaceX, empresa de Elon Musk, formalizou um pedido regulatório que leva essa lógica para fora do planeta.
A companhia protocolou junto à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) um requerimento para operar até um milhão de satélites com função de data centers orbitais. Caso autorizado, o projeto representaria a maior megaconstelação já submetida à análise formal de um órgão regulador e criaria uma infraestrutura espacial voltada exclusivamente à sustentação de modelos avançados de inteligência artificial e aplicações associadas.
Segundo os documentos enviados, os satélites estariam distribuídos entre 500 e 2.000 quilômetros de altitude, cobrindo órbitas com inclinação de até 30 graus, além de trajetórias síncronas ao Sol. A arquitetura proposta divide a constelação em diferentes clusters, espaçados a cada 50 quilômetros, ajustados conforme o tipo de carga computacional e os requisitos de latência de cada operação.
Essa nova camada orbital foi concebida para funcionar de forma integrada à atual rede Starlink. Hoje, a constelação de internet via satélite da SpaceX opera em torno de 550 quilômetros de altitude, faixa que vem sendo reduzida para aproximadamente 480 quilômetros, com o objetivo de diminuir a latência e acelerar o processo de desorbitamento ao fim da vida útil.
Até o momento, a empresa já lançou mais de 9.500 satélites Starlink, com cerca de 8.000 em operação, e mantém planos de longo prazo para ultrapassar 40 mil unidades. No desenho apresentado à FCC, os futuros data centers em órbita se conectariam a essa infraestrutura por meio de enlaces ópticos de alta capacidade, usando a Starlink como rede intermediária até as estações em solo.
Atualmente, cada satélite Starlink é equipado com três lasers capazes de atingir até 200 Gbps. A próxima geração, segundo a SpaceX, deverá alcançar 1 Tbps. A relevância estratégica das comunicações ópticas se intensificou após a Blue Origin, empresa de Jeff Bezos, anunciar o sistema TeraWave, projetado para comunicação e computação em órbita com suporte de até 6 Tbps. Musk respondeu publicamente afirmando que os futuros enlaces a laser da Starlink entre espaço e solo devem superar esse patamar.
Para funções de telemetria, rastreamento e comando, os satélites dedicados à computação também utilizariam sistemas em banda Ka, tecnologia mais lenta, porém amplamente consolidada no setor espacial.
No pedido encaminhado à FCC, a SpaceX sustenta que data centers orbitais são a forma mais eficiente de atender à demanda acelerada por poder computacional de IA. O argumento central envolve os custos energéticos crescentes e os impactos ambientais associados às grandes instalações terrestres. A empresa afirma que a constelação operaria com energia solar em mais de 99% do tempo, dependendo do plano orbital, reduzindo drasticamente a dependência de baterias.
Satélites posicionados em órbitas com maior exposição ao Sol seriam direcionados a cargas contínuas de processamento, enquanto outras unidades absorveriam picos de demanda. O resfriamento dos sistemas ocorreria exclusivamente por radiação, e a vida útil estimada de cada satélite é de cinco anos.
A viabilidade econômica do projeto está diretamente ligada ao desenvolvimento do foguete Starship. Segundo a SpaceX, apenas a operação plena e reutilizável do veículo permitiria reduzir de forma significativa os custos de lançamento e viabilizar satélites maiores e mais potentes. No cenário descrito à FCC, a capacidade de colocar um milhão de toneladas por ano em órbita, com 100 kW de poder computacional por tonelada, resultaria na adição de aproximadamente 100 gigawatts anuais de capacidade de IA, com custos operacionais mínimos.
O documento chega a afirmar que, livres das restrições do ambiente terrestre, em poucos anos o menor custo para gerar computação de IA será no espaço.
Apesar da escala do plano, a empresa não apresentou um cronograma detalhado de implantação. Em vez disso, solicitou à FCC uma dispensa das exigências regulatórias que normalmente impõem a colocação de metade da constelação em até seis anos e da totalidade em nove.
O histórico recente do Starship inclui cinco lançamentos realizados em 2025. Os três primeiros terminaram em explosões, enquanto os dois seguintes alcançaram sucesso orbital, ainda sem validação completa da reutilização, elemento considerado essencial para a redução estrutural de custos. A SpaceX já indicou que pretende iniciar o lançamento de satélites de terceira geração na primeira metade de 2026, embora atrasos façam parte do padrão histórico da empresa.
O projeto também se insere em um movimento corporativo mais amplo. A SpaceX avalia abrir capital ainda este ano, com estimativas de avaliação acima de um trilhão de dólares, e Musk já declarou que os recursos captados poderiam financiar os data centers orbitais. Em paralelo, existem negociações sobre uma possível fusão com a xAI, empresa de IA generativa do próprio Musk, além de discussões que envolvem a Tesla.
Se aprovado, o plano ampliaria de forma dramática o número de satélites ativos em órbita, atualmente em torno de 14 mil. Embora outras empresas explorem conceitos de computação espacial, como Axiom Space, NTT, Ramon.Space, Aetherflux e Sophia Space, nenhuma iniciativa se aproxima da escala apresentada pela SpaceX.
Há precedentes apenas pontuais. A Starcloud já lançou uma única GPU em órbita, enquanto executivos como Jeff Bezos projetam data centers de gigawatts no espaço em um horizonte superior a uma década. O Google, por sua vez, anunciou o Project Suncatcher, em parceria com a Planet, para testar TPUs em órbita, com potencial teórico de escalar para terawatts.
Ainda assim, o pedido da SpaceX, descrito como ambicioso e com baixo nível de detalhamento operacional, destaca-se como a proposta mais extrema já apresentada e reforça, ao mesmo tempo, o potencial transformador e as incertezas que cercam a próxima etapa da infraestrutura digital global.
Quando a computação deixa o chão firme e mira o espaço, o futuro passa a depender não apenas de tecnologia, mas de escolhas que redefinem o próprio limite do possível.






