

30 anos do Copom: da âncora cambial ao regime de metas para a inflação
Em junho de 1996, o Banco Central do Brasil instituiu o Comitê de Política Monetária (Copom), órgão responsável por definir a taxa Selic e conduzir a política monetária do país. Três décadas depois, a trajetória do Copom se confunde com a própria evolução da estabilidade macroeconômica brasileira, marcada por mudanças profundas de regime, crises e períodos de crescimento.
ECONOMIAMERCADOGOVERNOCRÉDITO
Por Alex Agostini - Austin Rating
6/19/20263 min read
Quando o Copom foi criado, o Brasil ainda vivia os efeitos iniciais do Plano Real. A estabilização dos preços dependia fortemente da chamada âncora cambial, mecanismo que mantinha o real valorizado em relação ao dólar para conter a inflação por meio do barateamento de produtos importados. Nesse contexto, a política monetária tinha papel complementar à estratégia cambial.
Entretanto, a combinação de déficits externos, crises internacionais e pressão sobre as reservas internacionais tornou o modelo cada vez mais difícil de sustentar. As crises do México (1994), da Ásia (1997) e da Rússia (1998) aumentaram a vulnerabilidade da economia brasileira. Em 13 de janeiro de 1999, o país abandonou o regime de bandas cambiais e adotou o câmbio flutuante, marco decisivo na história econômica.
A mudança exigiu uma nova referência para a política monetária. Ainda em 1999, foi implementado o regime de metas para a inflação, no qual o Copom passou a utilizar a taxa Selic como principal instrumento para garantir a convergência da inflação às metas definidas pelo CMN (Conselho Monetário Nacional). A substituição da âncora cambial pela âncora nominal baseada em metas para inflação consolidou o papel do comitê como centro das decisões macroeconômicas do país.
Ao longo de seus 30 anos, o Copom enfrentou episódios desafiadores, como a crise cambial de 1999, a turbulência eleitoral de 2002 com o “overshooting” na taxa de câmbio, a crise do Subprime nos Estados Unidos, em 2008, que desencadeou uma crise financeira global em 2009, a pedalada fiscal de 2014 que colocou o PIB no vermelho em 2015 e 2016, resultando no pior período de recessão do Brasil desde a década de 30, a pandemia da Covid-19 em 2020 que deflagrou um choque inflacionário global em 2021 e 2022, os conflitos geopolíticos entre Rússia e Ucrânia (2022) e Israel-EUA contra Irã (2026). Em todos esses períodos, o comitê precisou calibrar os juros para preservar a estabilidade financeira, a atividade econômica interna e o controle dos preços.
Por outro lado, houve importantes conquistas, como a consolidação do regime de metas, a redução gradual da inflação ao longo dos anos 2000, os ciclos de redução estrutural dos juros, que levaram a Selic aos menores níveis da história, o fortalecimento da credibilidade institucional do Banco Central e a conquista da autonomia formal da autoridade monetária, em 2021, a redução dos níveis de pobreza extrema e a melhora em índices de desenvolvimento humano.
Por fim, trinta anos após sua criação, mas ainda em fase de amadurecimento, o Copom permanece como uma das instituições centrais da economia brasileira e sua história reflete a transição de um país que combateu a hiperinflação (+2.400% em 1993) com instrumentos emergenciais, para outro que busca estabilidade por meio de regras, transparência e credibilidade na condução da política monetária. Nesse período, houve erros, é claro, mas no balanço de riscos desse “horizonte relevante de tempo” de execução da política monetária, os acertos se sobressaíram, como a capacidade diária de superação dos brasileiros.
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Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating – Agência de Classificação de Risco de Crédito.








