A guerra que ninguém vê: hackers também atuam no conflito entre Irã e EUA

Ataques digitais, campanhas de desinformação e operações de hackers mostram que conflitos contemporâneos ultrapassam o campo militar tradicional e avançam para o ambiente virtual.

POLÍTICATECNOLOGIA

Por Redação InfoDot

3/11/20264 min read

Conflitos modernos raramente se limitam aos campos de batalha tradicionais. Em um mundo conectado por redes digitais, disputas militares também se estendem à infraestrutura tecnológica que sustenta comunicação, informação e sistemas estratégicos. No cenário recente de tensão entre Estados Unidos e Irã, essa dimensão digital ganhou evidência.

Logo após ataques conjuntos realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos, uma série de incidentes virtuais foi registrada. Sites de notícias foram invadidos, aplicativos passaram a exibir mensagens de conteúdo político e a conectividade à internet no Irã sofreu quedas abruptas nas horas seguintes às operações militares.

Para o doutor em Política Científica e Tecnológica e professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, Alcides Peron, esses episódios fazem parte de uma lógica já presente em conflitos internacionais, mas que ganhou escala com o avanço tecnológico.

"Toda guerra possui uma frente ligada ao controle da informação. Trata-se da capacidade de adquirir dados, negar o acesso do adversário a essas informações e, em muitos casos, destruir suas estruturas de comando e controle", explica Peron.

Segundo o pesquisador, a guerra digital contemporânea está menos ligada à figura popular do hacker isolado diante de um computador e mais relacionada à infraestrutura tecnológica que sustenta as operações militares modernas.

Satélites, drones, antenas de comunicação e cabos submarinos compõem uma rede interligada que permite a coordenação de operações em diferentes frentes. Esse sistema garante que forças militares atuem de maneira integrada.

"Essa estrutura permite que diferentes forças militares operem de forma integrada, o que chamamos de interoperabilidade", diz Peron. "Proteger essa infraestrutura digital passou a ser tão importante quanto proteger sistemas de mísseis ou aeronaves. Sem isso, a capacidade de combate de um Estado fica seriamente comprometida”.

No entanto, essa mesma centralização também pode se transformar em fragilidade. Um ataque digital bem planejado pode comprometer sistemas inteiros de comando e controle sem a necessidade de disparos ou confrontos diretos.

Nos últimos anos, outra figura passou a aparecer com frequência nesse tipo de conflito, grupos de hackers que se apresentam como ativistas independentes, motivados por causas políticas ou ideológicas.

Na prática, porém, muitos desses grupos acabam atuando de forma alinhada aos interesses estratégicos de determinados países. Para o diretor-geral da Sophos no Brasil, André Carneiro, existe uma diferença clara entre esses grupos e operações digitais conduzidas diretamente por governos.

Hacktivistas costumam recorrer a ações mais visíveis e relativamente simples, como ataques de negação de serviço (DDoS), invasões de sites ou divulgação pública de dados obtidos em vazamentos.

Já operações patrocinadas por Estados normalmente utilizam ferramentas mais sofisticadas, incluindo malware desenvolvido sob medida, exploração de vulnerabilidades inéditas e campanhas de infiltração de longo prazo.

"Operações patrocinadas por governos têm recursos e objetivos bem mais estratégicos", afirma.

Mesmo assim, Peron demonstra cautela em relação à ideia de que esses grupos atuem completamente de forma autônoma.

"Existe a ilusão de que esses grupos são totalmente independentes. Mas ataques digitais totalmente desalinhados de uma estratégia central podem, inclusive, prejudicar o próprio Estado que diz apoiar”.

"Por mais que esses grupos passem uma imagem de autonomia, eles funcionam como instrumentos acessórios dentro de uma estratégia geopolítica maior", conclui.

O campo da guerra digital, entretanto, não se resume à invasão de sistemas ou roubo de dados. Outro elemento central é a chamada guerra informacional, que envolve estratégias voltadas à manipulação da percepção pública e ao impacto psicológico.

"Essa dimensão inclui disseminação de desinformação, produção de notícias falsas e até deepfakes gerados por inteligência artificial", explica Peron.

O avanço da inteligência artificial também vem acelerando a execução dessas operações. De acordo com Carneiro, campanhas recentes demonstram uma velocidade significativamente maior na realização de ataques.

A recente operação de captura do presidente da Venezuela Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, por exemplo, durou cerca de duas horas e meia, segundo reportagem do The Guardian.

Segundo o executivo da Sophos, grupos ligados a governos já empregaram inteligência artificial para automatizar diferentes etapas de invasões digitais. A empresa afirma já ter identificado ataques conduzidos quase de forma autônoma, com mínima intervenção humana.

Apesar da crescente importância do ciberespaço nos conflitos internacionais, ainda não existe um tratado global equivalente às Convenções de Genebra para regular especificamente o uso de armas digitais.

Algumas iniciativas, porém, buscam preencher essa lacuna. Entre elas estão a Convenção de Budapeste sobre crimes cibernéticos e o Manual de Tallinn, documento desenvolvido pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que procura interpretar a guerra digital à luz do direito internacional.

Peron afirma que, mesmo sem um acordo formal amplamente aceito, já começa a surgir um entendimento mínimo entre especialistas e governos.

"Já há um entendimento crescente de que ataques cibernéticos podem ser considerados uso da força entre Estados, e isso aciona toda a responsabilização prevista na Carta das Nações Unidas”, completa.

Na prática, esse entendimento indica que ações digitais capazes de comprometer hospitais, redes de transporte ou outras infraestruturas críticas podem ser enquadradas como violações do direito humanitário internacional.

Em um cenário cada vez mais conectado, disputas entre nações mostram que o controle da informação e da tecnologia tornou-se parte essencial das estratégias de poder, e que o domínio do espaço digital pode ser tão decisivo quanto o controle de territórios físicos.

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