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A IA nunca criou tanto. E nós, estamos desaprendendo a criar?

Na era tecno-humana, talvez o maior desafio não seja acompanhar o que a Inteligência Artificial consegue fazer, mas preservar aquilo que não podemos deixar de exercitar em nós.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIALCUSTOMER EXPERIENCECRIATIVIDADECULTURATECNOLOGIA

Por Glaucia Cisotto - Trestto, Regularize Ai

10/6/20269 min read

Em poucos segundos, uma Inteligência Artificial pode escrever um texto, criar uma imagem, compor uma música, desenvolver um roteiro, programar ou apresentar dezenas de soluções para um problema.

Nunca tivemos tantas ferramentas disponíveis para transformar uma ideia em alguma coisa.

E talvez seja justamente por isso que uma pergunta comece a me inquietar:

quanto mais a Inteligência Artificial cria, mais criativos nós nos tornamos?

Ou estamos, pouco a pouco, nos acostumando a receber respostas antes mesmo de formular nossas próprias perguntas?

Não acredito que precisemos diminuir a capacidade da Inteligência Artificial para defender o valor da criatividade humana.

A questão, para mim, é outra.

Se a tecnologia consegue ampliar extraordinariamente nossa capacidade de criar, precisamos compreender o que acontece conosco quando passamos a criar com ela.

Porque uma ferramenta pode ampliar uma capacidade.

Mas também pode atrofiá-la quando deixamos de exercitá-la.

A harmonia não nasce da competição

Cheguei a essa reflexão a partir do tema “harmonia entre criatividade humana e sintética”, apresentado por Dom Edson Oriolo no livro A fé na era dos algoritmos.

A obra aproxima tecnologia, antropologia, ética, fé e os desafios humanos que surgem em uma sociedade cada vez mais mediada por algoritmos.

Entre tantas provocações, uma palavra me chamou especialmente a atenção: harmonia.

Talvez porque grande parte da conversa sobre Inteligência Artificial ainda seja construída a partir da competição.

Quem cria melhor?

O que a máquina fará melhor do que nós?

Quais atividades serão substituídas?

Até onde a IA conseguirá chegar?

Mas harmonia pressupõe outra lógica.

Harmonia não significa que duas partes sejam iguais. Também não exige que uma delas desapareça para que a outra possa existir.

Em uma composição musical, diferentes notas preservam suas características e, justamente por serem diferentes, constroem algo que nenhuma delas produziria isoladamente.

Talvez seja essa a relação que precisamos aprender a desenvolver com a Inteligência Artificial.

A máquina não precisa imitar perfeitamente o ser humano para ser útil.

E nós não precisamos competir com sua velocidade para demonstrar nossa importância.

A IA contribui com processamento, escala, memória, combinações e probabilidades.

Nós contribuímos com experiência vivida, intenção, sensibilidade, consciência, discernimento e responsabilidade.

A verdadeira oportunidade não está em descobrir quem cria melhor. Está em compreender o que podemos criar juntos sem confundir nossos papéis.

Nunca foi tão fácil criar. E talvez esteja aí o risco.

Em maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou a encíclica Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial.

Entre as reflexões apresentadas, uma dialoga diretamente com a pergunta que proponho neste artigo.

Ao tratar do uso pessoal da IA, Papa Leão XIV chama atenção para a facilidade com que passamos a obter informações, análises, conteúdos e assistência. Essa facilidade melhora nossas vidas, mas traz um risco: podemos nos habituar a delegar demais e procurar respostas prontas, enfraquecendo nossa própria opinião e criatividade.

Acredito que essa provocação merece ser levada muito além do debate religioso.

Porque estamos diante de um paradoxo interessante:

nunca tivemos tantas ferramentas para ampliar nossa criatividade e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil deixar de exercitá-la.

Quando aceitamos a primeira resposta sem questioná-la, terceirizamos parte do pensamento.

Quando publicamos algo que não representa aquilo em que acreditamos, enfraquecemos nossa autoria.

Quando utilizamos a IA apenas para repetir fórmulas que já funcionaram, podemos transformar criatividade em reprodução eficiente.

E quando deixamos de perguntar porque sabemos que uma resposta aparecerá em segundos, talvez estejamos abrindo mão justamente de uma das partes mais humanas do processo criativo: a inquietação.

A Inteligência Artificial deveria ampliar nossa capacidade de pensar. Não nos dispensar do pensamento.

Utilizar IA não deveria significar perguntar menos.

Deveria nos permitir fazer perguntas melhores.

A Inteligência Artificial não tem uma biografia

Existe outra reflexão da Magnifica Humanitas que considero fundamental.

Papa Leão XIV diferencia claramente inteligência artificial e inteligência humana.

A IA pode superar nossa velocidade e nossa capacidade de cálculo. Pode processar quantidades extraordinárias de dados e identificar relações que dificilmente conseguiríamos perceber sozinhos.

Mas não vive uma experiência.

Não sente alegria ou dor.

Não amadurece por meio das relações.

Não conhece, a partir da experiência, o significado do amor, da amizade, do trabalho ou da responsabilidade.

Essa diferença me leva a uma ideia que considero central:

a Inteligência Artificial não tem uma biografia.

Toda criação humana nasce de algum lugar.

Criamos a partir daquilo que vivemos, das perguntas que nos inquietam, das perdas que atravessamos, dos vínculos que construímos e das esperanças que ainda carregamos.

Uma pessoa pode escrever sobre saudade porque sentiu uma ausência.

Pode criar uma solução porque encontrou um problema.

Pode desenhar uma experiência mais acolhedora porque, em algum momento, não se sentiu acolhida.

Pode inovar porque percebeu que alguém estava sendo ignorado por um sistema.

A Inteligência Artificial pode reconhecer como falamos sobre saudade.

Mas não sentiu falta de alguém.

Pode reproduzir estruturas de acolhimento.

Mas nunca precisou ser acolhida.

Pode organizar diferentes definições de propósito.

Mas nunca precisou encontrar uma razão para existir.

Isso não diminui sua contribuição.

Apenas revela que processar a experiência humana e viver uma experiência humana continuam sendo coisas profundamente diferentes.

Na era tecno-humana, nosso diferencial talvez seja ser mais humanos

Martha Gabriel traz outra perspectiva importante para essa discussão em Você, Eu e os Robôs.

A autora analisa uma humanidade já profundamente transformada pelas tecnologias digitais e aponta para um futuro cada vez mais híbrido, no qual seres humanos e tecnologias não ocuparão mundos separados.

Essa perspectiva me interessa especialmente.

Porque talvez não faça mais sentido imaginar tecnologia e humanidade como dois territórios independentes.

Já somos atravessados pela tecnologia na maneira como trabalhamos, aprendemos, nos relacionamos, consumimos informação, tomamos decisões e compreendemos o mundo.

É nesse contexto que gosto de pensar na era tecno-humana.

Não como uma humanidade substituída pela tecnologia, mas como uma humanidade ampliada por ela e, justamente por isso, ainda mais responsável pelas escolhas que faz.

Quanto mais as máquinas forem capazes de executar tarefas, produzir conteúdos e encontrar padrões, mais precisaremos desenvolver aquilo que nos permite interpretar, questionar, contextualizar, escolher e atribuir sentido.

Talvez nosso diferencial não esteja em fazer mais rápido aquilo que a máquina já consegue fazer.

Talvez esteja em não nos comportarmos como máquinas.

Criar não é apenas produzir algo novo

Durante muito tempo associamos criatividade à capacidade de produzir uma ideia original.

Com as Inteligências Artificiais generativas, essa definição começou a ser questionada.

Afinal, sistemas de IA produzem textos, imagens, códigos, melodias e combinações que não existiam daquela forma.

Não considero necessário negar essa capacidade para defender o valor humano.

A Inteligência Artificial pode participar de um processo criativo.

Pode sugerir alternativas, revelar relações que ainda não percebemos e nos ajudar a ultrapassar os limites do nosso repertório imediato.

Mas criar não significa apenas combinar elementos até chegar a um resultado novo.

Criar também é decidir por que alguma coisa deve existir.

É reconhecer uma necessidade.

Interpretar um contexto.

Assumir uma intenção.

E compreender os possíveis efeitos daquilo que será colocado no mundo.

Uma ideia pode ser tecnicamente brilhante e não fazer sentido para as pessoas.

Pode ser eficiente, mas insensível.

Pode ser inovadora, mas irresponsável.

Pode chamar atenção sem contribuir verdadeiramente para a vida de alguém.

Por isso, talvez precisemos acrescentar outras perguntas ao nosso processo criativo:

Isso tem valor?

Para quem estamos criando?

Que necessidade humana procuramos atender?

Que consequências isso pode produzir?

Estamos criando porque é possível ou porque é necessário?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Elas oferecem direção a ela.

A autoria começa onde a automação termina

Ser autor, neste novo contexto, não significa necessariamente produzir tudo sozinho.

Significa responder pelo resultado.

Posso utilizar uma ferramenta para organizar meu raciocínio, encontrar conexões, pesquisar caminhos ou experimentar outras formas de comunicar uma ideia.

Mas continuo responsável por reconhecer se aquilo representa o que penso, respeita as pessoas envolvidas e possui coerência com meus valores.

A responsabilidade não desaparece porque uma parte do processo foi automatizada.

Ao contrário.

Quanto maior a capacidade da tecnologia, maior precisa ser nossa atenção sobre seus efeitos.

A própria Magnifica Humanitas faz um chamado específico às pessoas que desenvolvem sistemas de Inteligência Artificial: cada escolha realizada no desenvolvimento tecnológico carrega uma determinada visão de humanidade.

Essa ideia ultrapassa os programadores.

Vale também para empresas, líderes, profissionais de comunicação, designers, educadores e para todos nós que utilizamos essas ferramentas.

Porque toda escolha tecnológica produz também uma consequência humana.

A máquina pode participar da produção. Nós continuamos responsáveis pelas consequências.

O que isso muda para empresas e marcas?

As organizações já utilizam Inteligência Artificial para desenvolver campanhas, personalizar ofertas, analisar comportamentos, automatizar atendimentos e projetar experiências.

Esses recursos podem trazer benefícios extraordinários.

O problema começa quando criatividade passa a ser confundida com velocidade de produção.

Uma marca pode criar centenas de mensagens personalizadas e não estabelecer nenhuma relação verdadeira.

Pode conhecer os hábitos de consumo de uma pessoa e continuar ignorando suas necessidades.

Pode prever qual produto alguém provavelmente comprará sem compreender o que essa pessoa valoriza, teme ou deseja preservar.

Dados ajudam a reconhecer padrões.

Mas um padrão nunca representa a totalidade de uma pessoa.

É por isso que CX, UX, VUI, comportamento humano, ética e tecnologia precisam caminhar juntos.

A experiência não pode ser projetada apenas a partir daquilo que o sistema consegue identificar.

Precisa considerar aquilo que as pessoas compreendem, sentem e vivem durante a interação.

A Inteligência Artificial pode ajudar uma marca a encontrar palavras.

Mas a organização ainda precisa decidir se está disposta a escutar.

Pode criar uma voz sintética extremamente convincente.

Mas não substitui o compromisso de oferecer respostas claras, respeitosas e coerentes.

Pode personalizar uma jornada.

Mas personalizar não deveria significar apenas reconhecer um nome ou prever uma preferência.

Significa considerar contexto, limites, vulnerabilidades e escolhas.

Sem esse cuidado, podemos utilizar uma tecnologia extraordinariamente avançada apenas para automatizar a distância entre aquilo que uma marca promete e aquilo que as pessoas realmente experimentam.

A criatividade do futuro será tecno-humana?

Quando falo em comportamento tecno-humano, não imagino uma pessoa dividida entre humanidade e tecnologia.

Penso em alguém cujas relações, decisões, desejos e formas de compreender o mundo já são atravessados por sistemas digitais.

Os algoritmos influenciam aquilo que vemos, as escolhas que consideramos possíveis, as pessoas com quem interagimos e até a maneira como apresentamos nossa identidade.

Por isso, compreender o comportamento humano daqui para frente exige também compreender os ambientes tecnológicos nos quais ele se manifesta.

E talvez o mesmo aconteça com a criatividade.

A criatividade do futuro provavelmente não será exclusivamente humana nem simplesmente artificial.

Ela nascerá cada vez mais da relação entre repertório tecnológico e consciência humana.

Mas essa relação somente será saudável se permanecermos intelectualmente presentes.

Se continuarmos capazes de escolher.

Interpretar.

Questionar.

Discordar.

Imaginar.

E assumir responsabilidade.

Não trabalho para fazer a tecnologia parecer humana.

Trabalho para que ela respeite melhor o ser humano.

Talvez agora seja necessário acrescentar algo a essa ideia:

também precisamos cuidar para que, ao utilizar tecnologias cada vez mais inteligentes, não deixemos de exercitar aquilo que nos torna humanos.

Afinal, estamos desaprendendo a criar?

Não acredito que a Inteligência Artificial esteja condenando a criatividade humana.

Muito pelo contrário.

Talvez nunca tenhamos tido uma ferramenta tão poderosa para ampliar nosso repertório, experimentar possibilidades e transformar ideias em realidade.

Mas nenhuma ferramenta pode garantir o que faremos com a potência que ela nos entrega.

Esse continua sendo o nosso papel.

Dom Edson Oriolo me trouxe a palavra harmonia.

Martha Gabriel nos ajuda a compreender uma humanidade cada vez mais integrada às tecnologias.

O excelentíssimo Papa Leão XIV nos oferece um alerta especialmente necessário para este momento: o avanço da Inteligência Artificial precisa continuar subordinado à dignidade, à consciência e à liberdade humanas.

Talvez essas três perspectivas apontem para uma mesma direção.

Não precisamos escolher entre o humano e o artificial.

Precisamos aprender a construir essa relação sem entregar à tecnologia aquilo que cabe a nós continuar cultivando.

A IA pode sugerir.

Combinar.

Organizar.

Simular.

Criar.

E surpreender.

Mas propósito, discernimento e responsabilidade não deveriam ser terceirizados ao algoritmo.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja mais se uma Inteligência Artificial consegue criar.

Já sabemos que consegue participar ativamente desse processo.

A pergunta agora é outra:

quando tudo puder ser criado em segundos, ainda estaremos dispostos a dedicar tempo para pensar, experimentar, errar, questionar e descobrir o que realmente queremos criar?

Porque não importa apenas o que conseguiremos produzir com a Inteligência Artificial.

Importa quem estamos nos tornando enquanto criamos ao lado dela.

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