

Fachada da Amazon - Imagem: iStock
Amazon anuncia corte de 16 mil funcionários às vésperas do balanço trimestral
Cortes estratégicos, inteligência artificial e disciplina de custos marcam a nova fase da Amazon às vésperas da divulgação de seus resultados trimestrais.
MERCADOTECNOLOGIAINTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Por Redação InfoDot
1/29/20264 min read
Enquanto empresas prometem crescimento contínuo, decisões duras costumam surgir nos bastidores. Ajustes silenciosos, feitos antes de grandes anúncios, muitas vezes dizem mais sobre a estratégia de longo prazo do que os próprios números divulgados ao mercado. É nesse contexto que a Amazon volta a chamar atenção de investidores e funcionários.
Na quarta-feira (28), a companhia confirmou a demissão de cerca de 16 mil trabalhadores de sua estrutura corporativa. A decisão ocorre poucos dias antes da apresentação dos resultados financeiros do quarto trimestre, marcada para 5 de fevereiro, repetindo um padrão recente adotado pela empresa.
A estratégia não é inédita. Em outubro de 2025, no dia 28, a Amazon dispensou 14 mil colaboradores apenas dois dias antes de divulgar o balanço do terceiro trimestre, apresentado em 30 de outubro. Naquele relatório, a empresa já havia registrado um impacto de US$ 1,8 bilhão, aproximadamente R$ 9,3 bilhões, em despesas relacionadas a rescisões e eliminação de cargos.
Agora, o novo corte acontece novamente às vésperas da conferência de resultados, reforçando a busca da gigante do varejo por maior eficiência operacional. Ao mesmo tempo, a companhia direciona volumes cada vez maiores de recursos para projetos ligados à inteligência artificial.
Em nota oficial, a vice-presidente sênior de Experiência de Pessoas e Tecnologia, Beth Galetti, afirmou que os desligamentos fazem parte de um esforço para “reduzir camadas e aumentar a responsabilidade”, garantindo espaço para investimentos nas “maiores apostas” estratégicas da empresa.
"Reconheço que esta é uma notícia difícil, e é por isso que estou compartilhando o que está acontecendo e o porquê", escreveu Galetti.
O anúncio, no entanto, foi precedido por um episódio de tensão interna. Na terça-feira (27), funcionários da Amazon Web Services (AWS) receberam por engano um e-mail que citava “mudanças organizacionais” e fazia referência a um enigmático “Projeto Dawn”, o que antecipou a notícia e gerou apreensão antes da confirmação pública.
Nos Estados Unidos, a maior parte dos profissionais afetados terá até 90 dias para tentar uma recolocação interna dentro da companhia. Caso não encontrem uma nova posição, receberão pacotes de apoio à transição e verbas rescisórias.
Para especialistas, o movimento reflete algo mais profundo do que uma simples contenção de despesas. Segundo Roberto Kanter, economista e professor da Fundação Getulio Vargas, a decisão está ligada à capacidade da empresa de substituir capital humano por soluções tecnológicas.
"O movimento recente da Amazon está ligado a uma transformação estrutural mais profunda: a substituição de tarefas operacionais, administrativas e intermediárias por inteligência artificial", afirma Kanter.
De acordo com o economista, a companhia vem convertendo o discurso de investimento em IA em ações concretas. "Funções ligadas a consolidação de informações, controle, reporte, coordenação e execução repetitiva passam a ter menor relevância econômica quando sistemas inteligentes realizam essas atividades com mais velocidade, menor custo marginal e maior consistência", completa.
Sobre o fato de os cortes ocorrerem pouco antes da divulgação do balanço, Kanter avalia que a escolha é estratégica do ponto de vista da comunicação com o mercado. Para ele, a iniciativa sinaliza disciplina e controle de custos, e não necessariamente dificuldades nos resultados.
"Ao antecipar esse tipo de decisão, a empresa sinaliza que está ativamente gerenciando sua estrutura de custos. O layoff, nesse contexto, funciona como evidência de que a transformação tecnológica já saiu do discurso e entrou na operação", conclui o professor.
Os efeitos financeiros dessa reestruturação já apareceram nos números do terceiro trimestre de 2025. A Amazon reportou vendas líquidas de US$ 180,2 bilhões, alta de 13% em comparação ao mesmo período do ano anterior. O lucro operacional, porém, ficou em US$ 17,4 bilhões, pressionado tanto pelas demissões em massa quanto por um acordo legal firmado com a Federal Trade Commission (FTC).
Sem esses custos extraordinários, o lucro operacional teria alcançado US$ 21,7 bilhões, indicando que, apesar do impacto imediato das rescisões, a empresa caminha para uma operação mais rentável com uma estrutura enxuta.
Enquanto reduz postos no segmento corporativo, a Amazon acelera em áreas consideradas estratégicas. A AWS, braço de computação em nuvem do grupo, registrou crescimento de 20% no último trimestre, atingindo US$ 33 bilhões em receita.
O CEO Andy Jassy tem reforçado publicamente a centralidade da inteligência artificial na evolução da companhia. "Continuamos a ver um forte impulso e crescimento em toda a Amazon, à medida que a IA impulsiona melhorias significativas em cada canto do nosso negócio", declarou no último balanço.
Além disso, a empresa destacou investimentos robustos em infraestrutura para sustentar essa demanda crescente, com a adição de mais de 3,8 gigawatts de capacidade energética nos últimos 12 meses destinados a seus data centers.
No fim, os números e os cortes revelam uma empresa que redesenha sua própria engrenagem para competir em um mercado cada vez mais dominado por tecnologia e eficiência.






