Após anos de expansão, crédito privado global começa a enfrentar questionamentos

Movimento recente de resgates em fundos internacionais reacende debate sobre liquidez, risco e precificação no mercado de crédito privado.

ECONOMIAMERCADO

Por Redação InfoDot

3/11/20266 min read

Mudanças no humor dos investidores costumam surgir quando o equilíbrio entre risco e retorno deixa de parecer tão claro quanto antes. Em ambientes financeiros complexos, pequenos sinais de cautela podem desencadear revisões amplas de estratégia. Esse movimento começa a aparecer no mercado global de crédito privado.

Nos últimos anos, essa classe de ativos ganhou forte popularidade, sobretudo após a crise financeira de 2008. Entretanto, o cenário atual passou a mostrar maior prudência por parte dos investidores, com fundos especializados registrando redução de aportes e aumento nos pedidos de resgate. Esse comportamento levanta questionamentos sobre aspectos importantes desse segmento, como liquidez, risco de inadimplência e os critérios utilizados para precificar os ativos.

Um episódio recente envolvendo a gestora americana Blue Owl Capital intensificou essas preocupações. Em fevereiro deste ano, um de seus fundos de crédito privado, o Blue Owl Capital Corp II (OBDC II), limitou saques após enfrentar uma forte onda de solicitações de retirada de recursos. Para atender às demandas por liquidez, o fundo vendeu aproximadamente US$ 1,4 bilhão em empréstimos privados no mercado secundário.

O episódio reacendeu discussões sobre o descasamento existente entre a liquidez prometida aos investidores e o caráter ilíquido de muitos ativos presentes nas carteiras desses veículos. Durante anos, o crédito privado ganhou relevância como alternativa de retorno, especialmente em economias desenvolvidas que conviveram por longos períodos com taxas de juros reduzidas.

Outro episódio recente reforçou o debate. Na última sexta-feira, a BlackRock, maior gestora de investimentos do mundo, informou ter restringido saques em um de seus principais fundos de crédito privado após um aumento simultâneo nos pedidos de retirada de recursos.

O fundo afetado é o HPS Corporate Lending Fund, que possui aproximadamente US$ 26 bilhões sob gestão. Esse veículo concede financiamento para empresas de médio porte, muitas vezes com acesso mais limitado ao crédito bancário tradicional. Somente no primeiro trimestre, investidores solicitaram resgates que somaram cerca de US$ 1,2 bilhão.

Esses fundos, entretanto, possuem regras específicas de liquidez. Em geral, apenas até 5% do capital pode ser resgatado por trimestre. Diante do volume de solicitações, a BlackRock autorizou pagamentos adicionais de US$ 620 milhões, enquanto restringiu novos pedidos.

Segundo o gestor de fundos da Patagônia Capital, Lauro Sawamura Kubo, a mudança de comportamento dos investidores está relacionada a uma combinação de fatores macroeconômicos, incluindo alterações nas taxas de juros globais e no ambiente inflacionário. De acordo com o gestor, investidores institucionais passaram a reduzir a exposição a fundos de crédito, especialmente nos Estados Unidos.

Um dos motivos apontados é a queda recente nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos, conhecidos como Treasuries. Com essa redução nos rendimentos, algumas estratégias de crédito perderam parte de seu carrego relativo.

Outro elemento importante envolve mudanças nas condições de financiamento internacional. Por muitos anos, investidores captaram recursos em países com juros extremamente baixos, como o Japão, e direcionaram esses recursos para ativos com retornos mais elevados nos Estados Unidos. Esse tipo de estratégia tornou-se menos atrativo diante das mudanças recentes nas condições financeiras globais.

Além disso, aumentaram as dúvidas em relação ao cenário fiscal de grandes economias e ao impacto das tensões geopolíticas sobre a capacidade de pagamento de empresas. Em resposta, parte dos investidores passou a buscar ativos considerados mais seguros ou migrou para títulos públicos.

Para Pierre Souza, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), a saída de capital dos fundos de crédito privado reflete principalmente uma mudança na forma como os investidores avaliam o risco.

"Quando eu tenho um título seguro e líquido, como título do governo, pagando juros relativamente altos, a tendência é uma migração da renda fixa do crédito privado para um crédito público", diz Souza.

Na avaliação do professor, títulos públicos acabam oferecendo rendimentos elevados ao mesmo tempo em que mantêm liquidez e segurança, tornando-se mais atraentes em determinados momentos do ciclo econômico. Esse movimento cria pressão adicional sobre fundos que investem em empréstimos corporativos.

Quando há retirada de recursos, gestores podem ser obrigados a vender ativos para gerar liquidez. Em alguns casos, essas vendas ocorrem a preços mais baixos, o que amplia a percepção de risco no mercado.

Situações desse tipo chamam atenção para um desafio estrutural do crédito privado. Em muitos veículos de investimento, investidores conseguem solicitar resgates enquanto a maior parte da carteira está aplicada em empréstimos corporativos de longo prazo e baixa liquidez no mercado secundário.

Gabriel Santos, head de research da Bloxs, aponta esse descasamento como um dos principais pontos de atenção do setor.

"O que estamos observando no mercado global de crédito privado é um ajuste relevante após anos de forte crescimento desse segmento", afirma.

Segundo ele, diversos fundos oferecem janelas periódicas de resgate mesmo investindo em ativos que possuem prazos longos e pouca liquidez. Quando muitos investidores pedem retirada ao mesmo tempo, gestores podem ser obrigados a vender ativos com desconto.

Outro fator que contribui para a cautela é a forma como esses ativos são precificados.

"Diferentemente de títulos negociados em bolsa, empréstimos privados são avaliados por modelos internos das gestoras, o que pode gerar desconfiança sobre o valor real dos ativos." Gabriel Santos, head de research da Bloxs

Apesar do aumento das preocupações, especialistas evitam classificar o momento atual como uma crise sistêmica. Para Kubo, o cenário se aproxima mais de um processo de revisão de expectativas por parte dos investidores.

"Isso não significa necessariamente que existe uma crise de crédito, mas sim um processo de ajuste." Lauro Sawamura Kubo, gestor de fundos de investimento da Patagônia Capital

Alguns indicadores vêm sendo monitorados com atenção pelo mercado, como o aumento das taxas de inadimplência corporativa e rebaixamentos de rating. Outro termômetro importante é a abertura dos spreads de crédito, que representam a diferença entre os juros pagos por empresas e aqueles oferecidos pelos títulos públicos.

Em momentos de maior cautela, investidores de longo prazo também podem enxergar oportunidades. Quando o risco percebido aumenta, empresas precisam oferecer taxas de juros mais elevadas para captar recursos, ampliando os spreads e o potencial de retorno.

Embora o movimento recente esteja mais concentrado em mercados internacionais, especialistas consideram que o tema também merece atenção no Brasil. O país possui um mercado relevante de crédito privado, que inclui debêntures, fundos estruturados e diferentes veículos de financiamento corporativo.

Mesmo assim, analistas avaliam que a estrutura brasileira possui alguns mecanismos que ajudam a reduzir o risco de movimentos abruptos de resgate. Segundo Gabriel Santos, muitos fundos locais possuem prazos de resgate mais longos ou períodos de carência, o que reduz a necessidade de vendas forçadas de ativos em momentos de estresse.

Além disso, diversos veículos mantêm parte da carteira alocada em títulos públicos justamente para atender eventuais pedidos de saque. Pierre Souza também destaca que regras de governança e liquidez ajudam a mitigar o risco de corridas por resgates.

"Se todo mundo resolver resgatar, esses fundos vão ter que antecipar títulos mais longos, e acabam tendo risco." Pierre Souza, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV)

A evolução das taxas de juros, da inadimplência corporativa e do apetite por risco dos investidores deve determinar se o movimento atual será apenas uma correção temporária ou o início de uma reprecificação mais profunda no mercado.

Em um ambiente financeiro dinâmico, mudanças na percepção de risco podem transformar rapidamente períodos de euforia em fases de ajuste, mostrando que mercados em expansão também precisam passar por momentos de recalibração.

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