Big techs projetam investimento de US$ 600 bilhões em IA e aumentam tensão no mercado

A escalada dos investimentos em inteligência artificial impulsiona inovação, mas também levanta dúvidas sobre sustentabilidade financeira e equilíbrio competitivo entre gigantes do setor.

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Por Redação InfoDot

2/12/20264 min read

Grandes revoluções tecnológicas costumam surgir cercadas por promessas e incertezas. O entusiasmo com o potencial transformador muitas vezes caminha ao lado de preocupações sobre custos e resultados concretos. Esse cenário se repete diante dos planos das principais empresas de tecnologia, que pretendem destinar cerca de US$ 600 bilhões para projetos de inteligência artificial em 2026, movimento que vem intensificando o nervosismo entre investidores e ampliando o debate sobre impactos na rentabilidade das companhias, especialmente no segmento de software.

Entre as empresas que influenciaram diretamente o humor do mercado, a Amazon registrou queda superior a 5% em suas ações no início de fevereiro, após divulgar planos que envolvem US$ 200 bilhões em investimentos. Já a Alphabet, controladora do Google, apresentou retração de 2,51% depois de anunciar que seus gastos podem dobrar ainda neste ano. No mesmo período, a Meta Platforms encerrou o pregão com desvalorização de 1,31%.

Enquanto parte das big techs enfrentava pressão, outras empresas do setor encerraram o dia em trajetória positiva. A Nvidia liderou os ganhos com avanço de 7,87%, seguida pela Microsoft, que subiu 1,90%, e pela Tesla, que registrou valorização de 3,50%. No panorama mais amplo, o índice S&P 500 avançou 1,97% e o Nasdaq subiu 2,18%, embora ambos tenham encerrado a semana acumulando perdas.

Para Andrew Wells, diretor de investimentos da SanJac Alpha, em Houston, o mercado passou a questionar o nível de antecipação das expectativas relacionadas à tecnologia. “O mercado entende que a aposta na expansão da IA, e a forma como esses ganhos foram antecipados por muitos anos, ficou cara demais”, disse à agência Reuters Andrew Wells, diretor de investimentos da SanJac Alpha, em Houston. Ele acrescentou: “Não é que essa tese tenha acabado, mas ela ficou cara demais ao antecipar receitas futuras sem considerar adequadamente os riscos. Por isso, trata-se de um movimento de redução de exposição”.

A pressão também atingiu empresas especializadas em análise de dados, impulsionada pelo receio de que novos modelos avançados de inteligência artificial comprometam seus modelos de negócios. A canadense Thomson Reuters apresentou recuo de 0,64% após sofrer uma queda recorde em um único dia no início da semana. Já a RELX, companhia listada em Londres, caiu 4,6% e acumulava perda próxima de 17%, configurando seu pior desempenho semanal desde 2020.

No setor de tecnologia, o índice S&P 500 de software e serviços apresentou retração de quase 8% ao longo da semana, eliminando aproximadamente US$ 1 trilhão em valor de mercado desde 28 de janeiro. O movimento reforça a percepção de que investidores passaram a adotar postura mais cautelosa diante das projeções ligadas à inteligência artificial.

Segundo Carlota Estragues Lopez, estrategista de ações da St. James’s Place, em Londres, o mercado mudou a forma de interpretar anúncios ligados à IA. “Manchetes que, no auge do otimismo com a IA, teriam levado as ações a novos recordes agora estão sendo interpretadas com muito mais cautela pelos investidores”, disse à Reuters Carlota Estragues Lopez, estrategista de ações da St. James’s Place, em Londres. Ela acrescentou: “Não é apenas o retorno sobre o investimento que preocupa, mas também o risco de uma liderança de mercado muito concentrada, restrita a poucas empresas de grande valor de mercado”.

Outro fator que ampliou a volatilidade foi o lançamento de um novo plug-in do Claude, sistema de inteligência artificial desenvolvido pela Anthropic. A novidade provocou forte liquidação de papéis ligados a software e análise de dados, ampliando a insegurança no setor.

Nesse contexto, as ações do London Stock Exchange Group acumularam queda próxima de 8% na semana, marcando a segunda sequência consecutiva de perdas expressivas para a empresa.

A desvalorização das companhias mais expostas à inteligência artificial acabou pressionando o desempenho global das bolsas. O índice MSCI, que acompanha mercados acionários ao redor do mundo, registrou recuo de 0,14% no período.

O impacto foi ainda mais evidente na Índia, onde empresas exportadoras de software sofreram nova queda superior a 2% na sexta-feira, encerrando uma semana que eliminou US$ 22,5 bilhões em valor de mercado.

O aumento da cautela dos investidores ocorre simultaneamente a uma tendência crescente de penalização do mercado às big techs que anunciam elevação nos investimentos em inteligência artificial. A Alphabet, por exemplo, revisou para cima seus planos de gastos na quinta-feira, o que levou suas ações a cair até 8% em determinado momento, embora tenham fechado o dia estáveis.

Mesmo com desempenho operacional considerado sólido, o mercado manteve o foco nas despesas projetadas. “Tanto a Alphabet quanto a Amazon apresentaram desempenho operacional sólido, impulsionado por um crescimento em nuvem acima do esperado", disse à Reuters Aarin Chiekrie, analista de ações da Hargreaves Lansdown. "Mas isso não foi suficiente para desviar a atenção do mercado de seus planos elevados de investimento”, concluiu.

O avanço tecnológico costuma exigir apostas ousadas, mas o equilíbrio entre inovação e sustentabilidade financeira segue sendo o verdadeiro desafio das grandes transformações.

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