

Brasil surpreende em meio ao conflito no Oriente Médio
Entre inflação pressionada e capital estrangeiro em alta, Brasil navega com resiliência em meio à turbulência geopolítica
GOVERNOMERCADOECONOMIA
por Alex Agostini
4/16/20263 min read
Alguns amigos me perguntaram qual é o motivo de os ativos financeiros do Brasil, como bolsa de valores e taxa de câmbio, apresentarem comportamento positivo nas últimas semanas, a bolsa de valores flertou com os 200 mil pontos e o Real furou o piso dos R$ 5,0/US$, mesmo com esse turbilhão gerado pelo conflito EUA-Israel contra Irã.
Em geral, os países emergentes são fortemente impactados quando há crises econômicas e financeiras devido ao maior risco de contágio em decorrência da globalização financeira. Porém, quando se trata de crises geradas por conflitos geopolíticos o contágio tende a ser menor, mas nunca nulo, como ocorreu em 2022 quando a Rússia atacou a Ucrânia, ou em 2023 quando o grupo terrorista Hamas atacou Israel.
É fato que o Brasil não é uma ilha de prosperidade e blindado a eventos exógenos, portanto, não está imune aos efeitos colaterais gerados pelo conflito geopolítico no Oriente Médio. A taxa de inflação medida pelo IPCA, por exemplo, surpreendeu os analistas de mercado ao anotar alta de 0,88% no último mês de março, maior variação para o mês desde março de 2022, 1,62%, com destaque para as fortes altas nos preços de alimentos e combustíveis.
Se por um lado já computamos alta dos preços em alimentos e combustíveis devido ao conflito geopolítico no Oriente Médio, e isso mantém acesa a luz amarela para o Banco Central, por outro lado o Brasil tem se beneficiado pela entrada de capital externo devido justamente ao seu diferencial de juros com o exterior, nossa taxa de juros reais é uma das mais altas do mundo e ainda permanece acima de dois dígitos. Essa entrada de dinheiro estrangeiro tem derrubado a cotação do Real frente ao Dólar, inclusive ficando abaixo dos R$ 5,0/US$ após quase dois anos, e esse é um movimento muito positivo no balanço de riscos para a autoridade monetária ter maior segurança na continuidade do “processo de calibração do juro”. Em levantamento realizado pela Austin Rating, o Real é a sexta moeda que mais se valorizou frente ao Dólar desde o início do conflito, em 28/fev, até o dia 15/abr.
Outro fator que tem colaborado para um ambiente doméstico brasileiro mais equilibrado em relação aos demais emergentes é a composição da nossa matriz energética. Ou seja, enquanto os países emergentes do sudeste asiático e do leste europeu dependem fortemente da importação de petróleo para atender sua demanda interna e manter seu ritmo de crescimento econômico, o Brasil está em uma posição confortável de exportador líquido da commodity, além de suprir sua demanda interna de energia por meio de suas hidrelétricas, usinas solares e eólicas, além de ter disponíveis biocombustíveis.
Por fim, vale destacar que o IPCA é o índice de inflação de referência para o Banco Central balizar suas decisões sobre taxas de juros no Brasil, e visto que o indicador ficou em 4,14% no resultado acumulado dos últimos 12 meses, se posicionando muito próximo ao teto da meta para inflação, que é de 4,5%, a autoridade monetária deve manter seu alerta de “serenidade e cautela” quanto aos próximos passos para determinar o novo nível de juros ainda no mês de abril.
Ainda é possível acreditar que dias melhores virão para a taxa de juros no Brasil, com boas perspectivas de continuidade do processo de redução. Mas não se enganem, pois o ritmo das reduções continuará em doses homeopáticas até que haja maior clareza sobre o fim da Guerra de Trump e o balanço do prejuízo gerado à toda economia global.








