Cientistas descobrem exame capaz de estimar quando o Alzheimer pode surgir

Um biomarcador sanguíneo pode antecipar, com anos de antecedência, o desenvolvimento clínico da doença, abrindo caminho para prevenção e planejamento terapêutico.

TECNOLOGIASAÚDE

Por Redação InfoDot

2/23/20263 min read

Há momentos em que a ciência parece tentar decifrar o tempo dentro do próprio corpo humano. Antes mesmo de qualquer sinal visível, processos silenciosos já estão em andamento, moldando o futuro da saúde. É nesse território invisível que um novo estudo sugere ser possível prever quando o Alzheimer pode se manifestar.

Pesquisadores da Washington University School of Medicine divulgaram, na última quinta-feira, 19, na revista Nature, evidências de que um exame de sangue simples pode funcionar como um “relógio molecular”. A proposta não é apenas indicar o risco de desenvolver a doença de Alzheimer, mas também estimar em que período da vida os primeiros sintomas clínicos tendem a aparecer.

O método baseia-se na quantificação da proteína p-tau217 no sangue. Esse marcador está associado ao acúmulo de placas e emaranhados proteicos no cérebro, alterações biológicas que podem começar décadas antes das manifestações cognitivas perceptíveis.

Hoje, a medição de p-tau217 já auxilia no diagnóstico em pessoas que apresentam declínio cognitivo. O avanço apresentado pela nova pesquisa é a tentativa de projetar a idade provável de início dos sintomas mesmo em indivíduos que ainda não demonstram sinais clínicos.

Para construir o modelo, os cientistas analisaram informações de mais de 600 participantes provenientes de grandes estudos longitudinais sobre Alzheimer nos Estados Unidos. A partir desses dados, desenvolveram estimativas sobre o tempo restante até o aparecimento dos sintomas, alcançando uma margem de erro aproximada de 3 a 4 anos. Embora ainda não permita previsões totalmente personalizadas para cada paciente, o resultado supera abordagens anteriores, que não indicavam um intervalo temporal.

Outro achado relevante foi a influência da idade no intervalo entre a detecção do biomarcador e o surgimento dos sintomas. Quando o aumento da p-tau217 ocorre por volta dos 60 anos, os sinais clínicos podem levar cerca de duas décadas para surgir. Já se a elevação acontece aos 80 anos, esse período tende a cair para aproximadamente 11 anos.

Os possíveis impactos são amplos. Em pesquisas clínicas, a capacidade de identificar pessoas com maior probabilidade de desenvolver sintomas dentro de um prazo específico pode acelerar testes de terapias preventivas, reduzir custos e melhorar a qualidade estatística dos resultados. No âmbito assistencial, um cenário futuro com tratamentos eficazes permitiria planejar intervenções médicas, ajustes no estilo de vida e estratégias de cuidado com maior antecedência.

Antecipar o futuro da doença pode não impedir sua chegada, mas pode transformar profundamente a forma como nos preparamos para ela.

Leia mais...