

Coface aponta piora na capacidade de pagamento das empresas nas Américas
Relatório da Coface indica aumento das insolvências e pressão financeira nas Américas, com impacto mais intenso nas pequenas e médias empresas
MERCADOECONOMIA
Por Redação InfoDot | Fonte: Exame
2/10/20264 min read
Momentos de crescimento econômico nem sempre refletem estabilidade financeira para todos os agentes do mercado. Em meio a um cenário de juros elevados e custos crescentes, empresas passam a enfrentar maior dificuldade para manter compromissos financeiros, tendência observada no novo levantamento da Coface.
Análise divulgada pela empresa global de seguro de crédito à EXAME aponta deterioração do risco de crédito corporativo nas Américas para 2026. O estudo identifica um ambiente econômico ainda marcado por taxas de juros elevadas, pressão sobre custos financeiros e expansão econômica desigual entre setores e regiões.
Empreendimentos de menor porte aparecem como os mais impactados por esse cenário. Pequenas e médias empresas registram níveis de insolvência superiores aos observados antes da pandemia, sinalizando aumento da vulnerabilidade financeira desse grupo.
No mercado norte-americano, os dados indicam o encerramento de um período considerado favorável ao crédito corporativo. As falências empresariais já ultrapassam o patamar pré-pandemia, resultado da combinação entre juros elevados, endurecimento das condições de financiamento e absorção de novos custos, incluindo tarifas comerciais.
Avaliação apresentada por Marcos Carias, economista da Coface para a América do Norte, destaca diferenças no desempenho corporativo. "A economia americana vai bem em termos agregados, mas o desempenho é desigual", afirmou. "As grandes empresas conseguem atravessar esse ciclo com mais facilidade, enquanto as menores enfrentam um aperto financeiro crescente".
Dados reunidos pela instituição mostram que as condições financeiras permanecem restritivas. A inflação ao consumidor nos Estados Unidos está em 2,7%, acima da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve, fator que limita movimentos mais rápidos de flexibilização monetária.
Projeções do mercado indicam possibilidade de até dois cortes de juros ao longo de 2026, condicionados ao comportamento da inflação. "Se a economia continuar rodando forte, o Fed pode ter menos espaço para cortar juros, o que afeta diretamente setores mais sensíveis ao crédito e empresas mais alavancadas", disse Carias.
Impactos adicionais também aparecem nas margens das companhias americanas, segundo o estudo. "O choque das tarifas está sendo absorvido principalmente pelas margens. Para companhias menores, com menor poder de repasse de preços e acesso mais restrito a crédito, esse ambiente se torna especialmente difícil", afirmou o economista.
Indicadores bancários reforçam esse movimento, com crescimento da inadimplência em empréstimos comerciais e industriais nos Estados Unidos. A deterioração ocorre de forma mais intensa nas carteiras de bancos regionais, tradicionalmente mais expostos às pequenas e médias empresas, ampliando o risco de crédito em segmentos mais vulneráveis ao aperto monetário.
Na América Latina, o ambiente financeiro também permanece pressionado. Segundo Patricia Krause, economista-chefe da Coface para a região, o crédito segue restrito, com pouco espaço para cortes monetários em países como Peru, Chile e México.
Projeções envolvendo o Brasil apontam tendência semelhante, embora exista expectativa de redução gradual dos juros. "Mesmo onde há expectativa de cortes, como no Brasil, a redução tende a ser gradual e insuficiente para aliviar, no curto prazo, o estresse financeiro das empresas", afirmou.
Indicadores brasileiros mostram continuidade da pressão sobre a capacidade de pagamento corporativa, com inadimplência em níveis recordes. A taxa básica de juros, a Selic, permanece em 15% ao ano, e as projeções indicam encerramento de 2026 em 12,25%, patamar ainda considerado elevado.
Cenário de juros persistentes tende a prolongar dificuldades financeiras, conforme avaliado por Krause. "As taxas devem permanecer altas por mais tempo, prolongando a pressão sobre o fluxo de caixa das empresas", disse a economista-chefe.
Situação semelhante aparece na Colômbia, onde pedidos de recuperação judicial cresceram 11% nos primeiros nove meses de 2025 na comparação com igual período do ano anterior. Paralelamente, revisão altista das projeções inflacionárias, impulsionada pelo reajuste de 23% do salário mínimo, levou o mercado a estimar elevação dos juros para até 11,25% em 2026.
Impactos desse movimento monetário também foram avaliados pela economista. "Juros em trajetória de alta tendem a pressionar ainda mais a capacidade de pagamento", afirmou Krause.
No caso argentino, o ambiente econômico apresenta sinais mistos. Apesar da desaceleração relevante da inflação e da expectativa de crescimento acima da média regional em 2026, a recuperação ocorre de maneira desigual entre os setores produtivos.
Dados bancários indicam que a inadimplência empresarial permanece próxima de 2%, embora com trajetória ascendente. "A recuperação não se traduz de forma homogênea. Setores como agricultura e energia avançam mais rápido, enquanto construção e indústria seguem fragilizadas", disse Krause.
Avaliação geral da Coface aponta que o cenário corporativo em 2026 será marcado por juros ainda elevados, incertezas comerciais e desempenho econômico desigual. Nesse contexto, a empresa destaca a importância de fortalecer práticas de gestão de crédito e controle de risco comercial. "Informação, monitoramento e prevenção se tornam ainda mais determinantes em um ambiente de crédito mais desafiador".
Ambientes econômicos instáveis reforçam que resiliência financeira depende tanto de planejamento quanto da capacidade de adaptação às mudanças do mercado.






