Raízen é uma das maiores produtoras mundiais de açúcar e etanol e uma peça-chave no setor de biocombustíveis do Brasil — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg

Crise da Raízen levanta dúvidas sobre novo ciclo do etanol no Brasil

Endividamento elevado, mudanças estruturais no mercado e nova dinâmica de oferta colocam em xeque o ritmo de crescimento esperado para o etanol no Brasil.

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Por Redação InfoDot

3/25/20263 min read

Momentos de entusiasmo econômico costumam ser seguidos por períodos de ajuste, especialmente em setores que crescem rapidamente. No mercado de biocombustíveis, sinais recentes indicam que o ciclo de expansão pode estar entrando em uma fase mais desafiadora.

A crise financeira enfrentada pela Raízen passou a ser vista como um possível indicativo dessa mudança, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg. A empresa, fruto de uma joint venture entre Shell e Cosan e uma das maiores do setor, firmou acordo para reestruturar aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas, movimento que pode alterar a configuração societária e sinalizar uma nova etapa para o etanol no país.

Fundada em 2011, a companhia apostou em uma estratégia de crescimento acelerado. No entanto, o aumento dos custos operacionais, combinado ao cenário de juros elevados, acabou pressionando significativamente o endividamento.

Em documento judicial citado pela Bloomberg, a empresa admitiu que houve um descompasso entre a elevação das despesas financeiras e a geração de receita proveniente dos investimentos realizados. O impacto da crise também se estende ao campo societário. A Cosan interrompeu negociações relacionadas a uma possível injeção de capital e pode ter sua participação diluída após divergências sobre propostas de reorganização dos negócios.

Ao mesmo tempo, a expectativa de avanço mais rápido dos combustíveis renováveis não se concretizou no ritmo previsto. Esse contexto coincide com a saída de investidores relevantes do setor. A Louis Dreyfus vendeu a unidade Biosev, enquanto a Bunge encerrou uma joint venture com a BP.

A consultora sênior da J.Pacta e ex-executiva da área de biocombustíveis da BP, Ana Bastos, afirmou à Bloomberg que havia a percepção de que as energias renováveis cresceriam mais rapidamente e ocupariam um espaço maior, mas que esse avanço acabou sendo mais lento e menos intenso do que o esperado.

Além das questões financeiras, o setor enfrenta transformações estruturais relacionadas à oferta e à formação de preços. A expansão do etanol produzido a partir do milho tem contribuído para limitar a valorização do produto no mercado doméstico. Segundo dados citados pela Bloomberg, esse tipo de combustível pode responder por até 28% da produção brasileira na safra atual, ante 21% no ciclo anterior.

No comércio exterior, o desempenho segue restrito. Historicamente, as exportações não superaram 10% da produção nacional e vêm perdendo participação devido a barreiras regulatórias e ao aumento da concorrência internacional.

Nesse cenário, a disputa entre o etanol de cana-de-açúcar e o etanol de milho tende a se intensificar. “Em 2026, pela primeira vez, veremos competição e conflito entre os dois tipos de etanol”, afirmou o presidente da SCA Brasil, Martinho Ono. Segundo ele, o mercado deve enfrentar simultaneamente maior oferta do biocombustível derivado da cana e expansão da produção baseada no milho.

Outro fator que pressiona o setor é a política de preços da Petrobras, que tem limitado reajustes da gasolina. Como grande parte da frota brasileira é flex, a redução da diferença de preços torna o combustível fóssil mais competitivo e diminui o estímulo ao consumo de biocombustíveis.

Esse movimento pode afetar diretamente a demanda por etanol, principal produto comercializado pela Raízen, ampliando os desafios enfrentados pela companhia e pelo setor como um todo.

Quando ciclos de crescimento encontram limites econômicos e estruturais, o mercado é obrigado a se reinventar para seguir avançando

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