Estudo aponta papel do cromossomo X nas diferenças de saúde entre homens e mulheres

Pesquisa da Universidade da Califórnia indica que genes do cromossomo X antes considerados inativos podem influenciar doenças, metabolismo e resposta a tratamentos.

SAÚDE

Por Redação InfoDot

4/29/20263 min read

O corpo humano guarda respostas em mecanismos que por décadas passaram despercebidos. Muitas diferenças de saúde parecem simples à primeira vista, mas costumam nascer de interações biológicas complexas. Nesse cenário, um estudo da Universidade da Califórnia, publicado em abril na revista Nature, aponta que os cromossomos sexuais, especialmente o cromossomo X, também exercem papel direto nas distinções observadas entre homens e mulheres.

Durante muito tempo, explicações para essas diferenças ficaram concentradas sobretudo nos hormônios sexuais, como estrogênio e testosterona. A nova pesquisa amplia essa visão ao indicar que fatores genéticos ligados aos cromossomos também participam desse processo.

Tradicionalmente associado à diferenciação sexual, o cromossomo X agora aparece como peça importante para compreender por que quadros de autoimunidade, câncer, doenças cardiovasculares, doenças metabólicas, demência e autismo se manifestam de maneira distinta entre os sexos.

O centro do trabalho está em um mecanismo conhecido há anos, que ganhou novo peso com dados recentes. Mulheres possuem dois cromossomos X, e um deles costuma ser “silenciado” para equilibrar a atividade genética em relação aos homens, que têm um X e um Y.

Entretanto, esse bloqueio não ocorre de forma completa. Pelo menos 20% dos genes presentes no X inativo conseguem escapar desse silenciamento, alterando o funcionamento celular.

Esse fenômeno ajuda a explicar por que as diferenças entre homens e mulheres não dependem apenas da ação hormonal. Em um dos experimentos descritos, camundongos com dois cromossomos X mostraram maior suscetibilidade a efeitos colaterais das estatinas, medicamentos utilizados para reduzir o colesterol.

Entre os genes destacados pelos pesquisadores está o KDM5C. Em camundongos, maior expressão desse gene foi relacionada a mais gordura corporal e a maior ganho de peso provocado por dieta.

Nos humanos, alta expressão de KDM5C no tecido adiposo também foi associada ao aumento do índice de massa corporal. Na prática, isso sugere que o cromossomo X participa não apenas de doenças raras ou de processos reprodutivos, mas também de mecanismos centrais do metabolismo, com impacto sobre acúmulo de gordura e resposta do organismo a tratamentos.

Na área da autoimunidade, o estudo informa que cerca de 80% das pessoas com doenças autoimunes são mulheres. Um dos genes citados é o TLR7, ligado ao sistema imune.

Em parte das células, esse gene consegue escapar do silenciamento. Quando sua atividade aumenta excessivamente, células B passam a produzir anticorpos contra o próprio organismo, favorecendo o desenvolvimento do lúpus.

Os autores também ressaltam a função do RNA Xist, responsável por manter o cromossomo X inativo sob controle. Segundo o trabalho, a perda desse RNA é comum em tumores agressivos de mama em mulheres.

Ainda de acordo com a pesquisa, pequenas alterações relacionadas a essa perda já foram suficientes para comprometer o desenvolvimento normal de células mamárias.

O estudo não descarta a relevância dos hormônios. A proposta apresentada é mais ampla, reunindo hormônios, cromossomos sexuais e regulação gênica como fatores que atuam em conjunto.

Essa abordagem ajuda a entender por que diferenças entre os sexos surgem em diversas áreas da medicina e por que nem sempre seguem o mesmo padrão ao longo da vida.

Os dados também sugerem que os cromossomos sexuais não estão ligados apenas ao aumento de risco. Em determinados casos, uma dose extra de genes do X inativo pode até oferecer proteção, como na hipótese levantada para ajudar a explicar por que o autismo é mais comum em homens do que em mulheres.

Os autores afirmam ainda que essa linha de investigação pode contribuir para esclarecer lacunas históricas relacionadas à compreensão da saúde feminina.

Quanto mais a ciência aprofunda perguntas antigas, mais caminhos surgem para cuidar melhor de todos.

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