ESTUDO REVELA FORTE LIGAÇÃO ENTRE FINANÇAS E ADOECIMENTO MENTAL NO BRASIL

Pesquisa inédita da ABEFIN e Instituto Axxus mostra que o impacto financeiro está no centro dos transtornos mentais no país, afetando diferentes classes sociais e regiões com intensidade inesperada.

SAÚDEECONOMIAMERCADO

Por Redação InfoDot

6/26/20264 min read

Em tempos de pressão constante por desempenho, estabilidade e consumo, a mente humana acaba sendo atravessada por fatores que vão muito além do ambiente profissional, revelando que a origem do sofrimento emocional pode estar nas preocupações mais básicas do cotidiano financeiro.

Dados recentes levantados pela Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (ABEFIN) em conjunto com o Instituto Axxus indicam que 81,9% dos indivíduos diagnosticados com ansiedade, depressão, estresse crônico ou Burnout reconhecem que dificuldades relacionadas ao dinheiro tiveram influência direta ou indireta no agravamento de seus quadros.

O estudo ouviu 1.000 brasileiros de todas as regiões do país, todos com diagnóstico formal dessas condições, utilizando entrevistas presenciais aprofundadas conduzidas por psicólogos, com o objetivo de identificar os fatores percebidos como gatilhos do adoecimento mental.

Entre os entrevistados, 27,1% atribuíram exclusivamente às finanças o início de seus problemas psicológicos, enquanto 32,4% indicaram esse fator como predominante e 22,4% o colocaram entre as principais causas, mostrando a força do impacto econômico na saúde emocional.

Na análise direta sobre o gatilho principal dos transtornos, o dinheiro aparece na liderança com 34,6% das respostas, superando outros fatores como questões profissionais, apontadas por 20,5%, além de relações afetivas com 11%, separações ou divórcios com 10,9%, doenças físicas com 8,3% e luto com 5%.

Segundo o presidente da ABEFIN, Reinaldo Domingos, a relação entre finanças e saúde mental se tornou estrutural no comportamento social contemporâneo.

"A pesquisa mostra que a saúde financeira e a saúde mental estão profundamente conectadas. Quando uma pessoa vive sob pressão constante para pagar contas, lidar com dívidas, enfrentar a falta de recursos ou a insegurança sobre o futuro, isso inevitavelmente produz impactos emocionais."

Em outra frente revelada pelo levantamento, 49,1% das pessoas da Classe A afirmaram que o dinheiro é o principal fator ligado ao surgimento de transtornos mentais, número mais alto entre todas as faixas de renda analisadas, indicando que o medo da perda do padrão de vida também exerce forte pressão psicológica.

De acordo com Reinaldo Domingos, a pressão econômica não se limita à ausência de recursos, mas também ao esforço contínuo de manutenção da estabilidade.

"Muitas vezes se associa a dificuldade financeira apenas à falta de renda. Mas existe também a pressão para manter patrimônio, padrão de vida, compromissos financeiros e expectativas futuras. O medo de perder aquilo que foi conquistado pode gerar um nível de estresse tão significativo quanto a escassez de recursos. O sofrimento emocional relacionado ao dinheiro não escolhe classe social."

Em termos regionais, o levantamento aponta que o Norte registra 53,4% de casos de ansiedade e o Nordeste, 50,6%, enquanto o Sudeste concentra maior incidência de Burnout, com 31,2% dos entrevistados. Já entre aqueles que associam diretamente o dinheiro ao adoecimento, os maiores índices aparecem no Sul, com 37%, e no Centro-Oeste, com 37,5%.

No recorte geracional, jovens entre 18 e 30 anos apresentam 52,3% de ansiedade, enquanto entre pessoas acima de 60 anos a depressão atinge 42,1%, sendo o diagnóstico mais recorrente nessa faixa etária.

O impacto da instabilidade financeira também se reflete no cotidiano, afetando 64,9% dos entrevistados no lazer, 61,9% no humor, 60,1% nas relações familiares, 56,1% na qualidade do sono e 42,8% no desempenho profissional.

Entre os principais desafios relatados estão dificuldades para pagar contas básicas, mencionadas por 69,4%, dívidas acumuladas por 61,2%, renda insuficiente para necessidades diárias por 53,6% e desemprego por 31,1%.

No campo das expectativas, 35,9% dos participantes acreditam em melhora da saúde mental, mas apenas 20% demonstram otimismo em relação à própria situação financeira, enquanto 67,2% enxergam o futuro econômico de forma pessimista ou muito pessimista.

Apesar do cenário, 48,5% afirmam nunca ter buscado orientação em educação financeira, evidenciando uma lacuna entre percepção do problema e busca por soluções estruturadas.

Para o presidente da ABEFIN, Reinaldo Domingos, o enfrentamento do problema exige ação coordenada entre educação e saúde.

"Estamos diante de um desafio que exige ações em várias frentes. É preciso ampliar a educação financeira nas escolas, fortalecer programas corporativos e aproximar profissionais da saúde mental das questões financeiras que afetam seus pacientes. Não estamos falando apenas de dinheiro, mas de segurança emocional e prevenção."

A leitura dos dados sugere que a instabilidade financeira deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a ocupar espaço central na forma como o brasileiro sente, pensa e planeja o próprio futuro.

Quando o bolso dita o ritmo da mente, o equilíbrio emocional deixa de ser apenas psicológico e passa a ser também uma questão de sobrevivência cotidiana.

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