

Huawei e Aggreko anunciam maior projeto de baterias do Brasil na Amazônia
Sistemas solares integrados a baterias vão atender cidades isoladas do Amazonas, com R$850 milhões em investimentos e previsão de reduzir 104 mil toneladas anuais de CO²
INFRAESTRUTURA
Por Redação InfoDot
3/2/20264 min read
Garantir energia em regiões remotas sempre exigiu soluções caras e, muitas vezes, poluentes. Em áreas isoladas, a dependência de combustível fóssil ainda é regra, o que pressiona custos e amplia emissões. É nesse contexto que uma iniciativa de grande porte começa a redesenhar o mapa energético da Amazônia.
A chinesa Huawei e a britânica Aggreko firmaram parceria para implantar usinas solares combinadas a sistemas de armazenamento em baterias na região amazônica. Segundo as empresas informaram à Reuters, trata-se da maior operação de armazenamento de energia já estruturada no Brasil, voltada à redução da geração termelétrica em comunidades desconectadas do Sistema Interligado Nacional.
O projeto foi estruturado a partir de uma chamada pública realizada pelo governo federal no ano passado. A Aggreko, que já mantém termelétricas em diversas localidades isoladas, apresentou proposta para hibridizar essas operações com geração solar e baterias, diminuindo o consumo de diesel. A iniciativa atenderá 24 localidades do Amazonas, incluindo municípios de maior porte, como Tefé, que tem cerca de 75 mil habitantes.
A previsão é instalar 110 megawatts-pico, MWp, em usinas solares e 120 megawatt-horas, MWh, em capacidade de armazenamento por meio de sistemas BESS. O investimento total alcança R$850 milhões, sendo R$510 milhões provenientes de um fundo criado após a privatização da Eletrobras, atualmente denominada Axia Energia. A parcela restante será aportada pela própria Aggreko, que adquirirá as baterias da Huawei.
De acordo com dados da ABSAE, este será o maior projeto de armazenamento de energia do país. Hoje, o Brasil possui apenas um empreendimento de grande escala com baterias em operação, conduzido pela ISA Energia, no litoral paulista.
Nas microrredes previstas, a geração solar será dimensionada para produzir acima do consumo diurno, permitindo o carregamento das baterias que abastecerão o sistema nos períodos sem insolação. Cristiano Lopes Saito, diretor da Aggreko para vendas ao setor de utilities no Brasil, explicou que as térmicas permanecerão disponíveis para assegurar estabilidade operacional. “Somos obrigados a ter as térmicas, pelo nosso contrato. Não reduziremos capacidade térmica, o que vamos fazer é operar menos essas máquinas, com um custo associado menor. Esse é o segredo para aumentar a penetração renovável”, afirmou.
Ele também destacou que a elevada incidência de chuvas e nebulosidade na Amazônia impõe desafios adicionais à geração solar, o que reforça a necessidade de manter as usinas termelétricas como retaguarda.
Para a Huawei, o empreendimento representa o maior projeto de BESS em seu portfólio brasileiro, em meio à expectativa de um leilão inédito do governo federal para contratação de sistemas de armazenamento no setor elétrico. Segundo Bárbara Pizzolatto, diretora de Off-Grid da empresa no Brasil, as baterias terão papel estratégico na estabilidade das microrredes, garantindo controle de tensão e frequência. “É um projeto extremamente disruptivo, é o maior projeto de microgrid que tem hoje nas Américas, completamente desconectado da rede elétrica, e que acho que vai trazer muito benefício para a transição energética no Brasil.”
A implementação começa neste ano e deve se estender por até três anos, com as primeiras usinas previstas para entrar em operação entre 2027 e 2028. A expectativa é reduzir o consumo anual de diesel em 37 milhões de litros e evitar a emissão de 104 mil toneladas de gás carbônico equivalente por ano.
A diminuição do uso de combustível fóssil também tende a aliviar a Conta de Consumo de Combustíveis, a CCC, encargo incluído na conta de luz que subsidia a geração nos sistemas isolados.
Atualmente, políticas federais como Luz Para Todos e Mais Luz Para a Amazônia já promovem a instalação de sistemas solares individuais de pequeno porte com baterias em comunidades remotas. A proposta da Aggreko com a Huawei, contudo, terá escala suficiente para abastecer residências, estabelecimentos comerciais e até pequenas indústrias.
Bárbara Pizzolatto ressaltou a diferença de porte entre as soluções. “Nos projetos pequenos, usamos baterias residenciais, às vezes menores que um frigobar. A menor bateria que vamos usar no projeto da Aggreko pesa 2,8 toneladas, já as maiores, estamos falando do tamanho de contêiner de 20 pés, com 28 toneladas”, disse. “Um projeto como esse pode realmente servir de propulsor para a utilização do armazenamento para melhorar a qualidade de energia do país”, acrescentou ela.
A combinação entre geração solar, armazenamento em larga escala e suporte térmico sinaliza uma nova etapa na descarbonização dos sistemas isolados da Amazônia.
A transformação energética ganha força quando tecnologia e escala caminham juntas.






