

Indicadores tradicionais perdem força em meio à transformação da economia global
Regras que antes orientavam decisões de investidores e governos parecem menos eficazes diante de choques recentes e da reconfiguração geopolítica impulsionada por Donald Trump.
ECONOMIAMERCADO
Por Redação InfoDot
2/13/20264 min read
Em períodos de estabilidade, padrões ajudam a organizar expectativas e reduzir incertezas. Quando esses referenciais deixam de funcionar, cresce a sensação de desorientação. É esse o clima que domina parte dos analistas globais, após sucessivos sinais econômicos deixarem de produzir as respostas historicamente esperadas.
A perplexidade foi sintetizada em relatório recente do Banco Mundial ao afirmar: “O crescimento global desafia as expectativas”. Erros de projeção são comuns no campo econômico, quase rotineiros. Ainda assim, o momento atual sugere algo além das imprecisões habituais.
Modelos tradicionais que indicavam como empresas, consumidores, trabalhadores e investidores reagiriam a choques econômicos têm mostrado menor capacidade preditiva. A leitura dos dados tornou-se mais complexa, como se sinais amarelos deixassem de provocar desaceleração e passassem a estimular aceleração.
O comportamento do consumidor ilustra essa ruptura. Em cenários de pessimismo, o padrão histórico indica retração de gastos. Nos Estados Unidos, pesquisas apontaram queda da confiança ao menor nível em 12 anos, com avaliações negativas que vão da alta de preços ao mercado de trabalho. Apesar disso, o consumo das famílias segue em expansão constante.
O mercado acionário também apresenta dinâmica atípica. Mesmo diante de turbulências frequentes, incluindo uma guerra comercial mundial, mudanças abruptas de política, ameaças à independência dos bancos centrais, conflitos militares, tensões geopolíticas, endividamento elevado e a possibilidade de uma bolha ligada à inteligência artificial, as bolsas mantiveram trajetória de alta.
“É realmente notável que não tenhamos visto mais grandes oscilações”, disse Kenneth Rogoff, autor de “Our Dollar, Your Problem”, ao comentar a calma do mercado.
No ambiente corporativo, a incerteza tampouco produziu o impacto previsto pelos manuais. “Os manuais diriam que a incerteza é ruim para o crescimento econômico, mas não há muitas evidências de que ela tenha tido um impacto significativo na economia dos Estados Unidos até agora”, afirmou Neil Shearing, economista-chefe na Capital Economics. “O investimento empresarial é o primeiro lugar onde se esperaria ver isso aparecer, mas ele tem sido forte.”
Ainda que surpreendente, a quebra de expectativas encontra explicações no contexto recente. Economistas frequentemente tratam o sistema econômico como se obedecesse a forças quase automáticas, quando, na prática, ele resulta de decisões humanas heterogêneas e, por vezes, contraditórias.
O choque provocado pela pandemia de covid-19 desorganizou cadeias globais e alterou padrões de comportamento. Em seguida, a transformação da economia mundial e da ordem geopolítica impulsionada pelo presidente Donald Trump intensificou a volatilidade. O modelo cooperativo de comércio baseado em regras vem cedendo espaço a disputas entre grandes potências e práticas mercantilistas.
Indicadores clássicos de recessão também deixaram de cumprir seu papel histórico. Um aumento rápido e expressivo do desemprego sempre foi considerado sinal confiável de retração econômica. Contudo, essa correlação enfraqueceu. A chamada Regra de Sahm, criada por Claudia Sahm, ex-economista do Federal Reserve, apontou para uma recessão em 2024 que não ocorreu.
A inversão da curva de juros, outro marcador tradicional, igualmente perdeu poder explicativo. Em condições normais, títulos de longo prazo oferecem rendimentos superiores aos de curto prazo. Quando ocorre o oposto, costuma-se interpretar como prenúncio de crise. Esse padrão falhou de forma marcante em 2022 e 2023.
Também se alterou a relação entre desempenho da economia dos Estados Unidos e o dólar. Em momentos de risco elevado, a moeda americana tende a se fortalecer por ser vista como porto seguro. Ainda assim, o dólar recuou ao nível mais baixo em anos.
Parte das distorções encontra justificativa nas tarifas implementadas por Trump, que oscilaram de maneira imprevisível. Empresas anteciparam estoques ou absorveram custos temporariamente, reduzindo impactos imediatos sobre preços e emprego. Analistas revisaram projeções que apontavam para inflação mais alta e possível recessão após a ofensiva tarifária da primavera passada.
O consumo robusto, por sua vez, concentra-se em uma parcela restrita da população. Estimativa da Moody’s Analytics indica que os 10% mais ricos responderam por quase metade de todo o consumo. Consumidores mais apreensivos continuam comprando, porém migram para lojas de desconto.
Dados de cartões de crédito do Bank of America revelaram mudança nos hábitos, com maior gasto em supermercados na hora do almoço e menor frequência em restaurantes e lanchonetes, sinalizando preocupação com preços.
Quanto à fraqueza do dólar, analistas associam o movimento às tarifas elevadas, somadas a receios de interferência na autonomia do Federal Reserve e pressões inflacionárias.
Barry Eichengreen, professor de economia e ciência política da Universidade da Califórnia, em Berkeley, resume a fase atual ao afirmar: “A economia é uma fera incrivelmente complicada, e estamos em um período de mudança estrutural”. Ele acrescenta: “Por isso, não é surpreendente que regras práticas estejam falhando cada vez mais.”
Quando os referenciais deixam de apontar direções claras, compreender a complexidade passa a ser tão essencial quanto prever o próximo movimento.






