

Mar calmo nunca fez bons marinheiros
Entre a calmaria inicial e o choque geopolítico, a economia global volta a testar a resiliência dos mercados e das políticas econômicas
MERCADOECONOMIAPOLÍTICA
Por Alex Agostini | Austin Rating
3/17/20263 min read
O ano de 2026 começou “tranquilo demais” para a economia brasileira, com crescimento de 2,3%, taxa de inflação relativamente controlada após encerrar 2025 em 4,3% e com taxa de desemprego em 4% da força de trabalho. O Real estava em processo de valorização frente ao Dólar, passando de R$/US$ 5,50 em dez/25 para R$/US$ 5,30 em janeiro e chegou ficar abaixo de R$/US$ 5,14 ao longo de fevereiro. A bolsa de valores, o tal do Ibovespa, superou os 191,8 mil pontos e com claras perspectivas de romper a casa dos 200 mil pontos, em um cenário de queda de juros.
No ambiente global, a situação também parecia controlada. Os efeitos do tarifaço foram menores do que se imaginava, com grande parte sendo removidos, e os mercados financeiros já precificavam corte de juros nos EUA e na Europa.
No início deste ano, os EUA invadiram a Venezuela, em 03/jan, e capturaram Nicolás Maduro. A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com mais de 300 bilhões de barris. Porém, nada se alterou na geografia financeira global.
Entretanto, como em economia tudo é dinâmico e nada é conto de fadas, o quadro começou a se alterar bruscamente no dia 28 de fevereiro, quando, ainda não satisfeito, Donald Trump determina que a defesa dos EUA, junto com Israel, atacasse o Irã, terceiro maior produtor de petróleo do mundo, afetando o transporte de pelo menos 20% de todo o petróleo global que passa pelo Estreito de Ormuz, localizado em águas territoriais do Irã e de Omã, entre os Emirados Árabes e próximo a grandes produtores da commodity como Kuwait, Arábia Saudita e Catar.
Sob a perspectiva do conflito entre a maior economia do mundo e um dos maiores produtores de petróleo do planeta, bem como o risco de fornecimento da commodity, o preço do barril do petróleo ultrapassou rapidamente a marca dos US$ 100, e o temor de uma nova onda inflacionária tomou os holofotes. Os investidores ativaram o modo “flight to quality”, reduzindo suas alocações em ativos financeiros em países emergentes, como o Brasil. O Real se desvalorizou desde então, ainda que de forma moderada, ocorrendo o mesmo movimento com a bolsa de valores e os juros futuros.
Esse conflito não afeta somente o preço do barril de petróleo, pois países próximos ao Irã exportam fertilizantes, medicamentos, enxofre e alumínio, elevando o potencial de efeitos colaterais negativos na atividade econômica global.
Por ora, na tentativa de amenizar o risco de aumento dos preços dos combustíveis e de toda cadeia setorial que se utiliza de produtos derivados do petróleo ou de fretes de transportes, o governo brasileiro zerou os impostos sobre o diesel e anunciou subsídio às refinarias, o que deve gerar, no melhor dos casos, um efeito compensatório caso o conflito siga por muito mais tempo.
Trump tem tentado unir os países do Atlântico Norte com outros países da Ásia para desobstruir totalmente o Estreito de Ormuz e amenizar os efeitos de alta da inflação global, o que pode colocar em risco as perspectivas de redução dos juros nas principais economias desenvolvidas, com destaque aos EUA e Europa, e também em economias emergentes como o Brasil. O problema é que não será fácil o Irã declinar rapidamente dos conflitos.
É fato que mar calmo nunca fez bons marinheiros, mas convenhamos que, para viver em mares revoltos o tempo todo, é necessário ter estômago de avestruz.
---------------------------------
Alex Agostini é economista-chefe da Austin Rating, Agência de Classificação de Risco de Crédito







