

Imagem coneceito reproduzida pela InfoDot
No meio do caminho tinha uma pedra: a travessia do varejo até 2033
Reforma tributária, split payment e o fim da escala 6x1 chegam ao mesmo tempo. Não é um projeto de uma área só. É um projeto de negócio.
VAREJOMERCADOESTRATÉGIA
Por Mariana Nalin - A Credit
11/4/20263 min read
Drummond imortalizou a pedra no meio do caminho como símbolo do impasse humano. Para quem vive o varejo com a barriga no balcão e o olho na última linha do caixa, a imagem não tem nada de lírica. E, nos próximos anos, não será uma pedra só.
Três mudanças chegam ao mesmo tempo, e cada uma atinge um pilar diferente do negócio: a reforma tributária mexe no preço, o split payment mexe no caixa e o debate sobre o fim da escala 6x1 mexe na produtividade. Separadas, já seriam desafiadoras. Juntas, exigem uma revisão estrutural.
O preço. Em 2027, a CBS entra em vigor de forma plena e PIS e Cofins deixam de existir. O IBS também já está em curso, ainda com alíquota reduzida, e a partir de 2029 passa a substituir gradualmente ICMS e ISS até 2033. Na prática, o varejo vai conviver por anos com dois sistemas ao mesmo tempo. Cada item da prateleira precisará ser reclassificado, a formação de preço terá de incorporar a nova lógica de créditos e os sistemas de gestão e PDV precisarão ser atualizados.
O caixa. Com o split payment, o imposto é separado e recolhido no momento do pagamento eletrônico. Hoje, o intervalo entre a venda e o recolhimento funciona, para muitas redes, como capital de giro: financia estoque e paga fornecedor. Esse colchão tende a desaparecer. A implantação será gradual, mas quem depende dele precisa começar a se preparar agora. Sem disciplina diária no fluxo de caixa, o dinheiro acaba antes do fim do mês.
A produtividade. O fim da escala 6x1 ainda depende de promulgação, e muitas dúvidas jurídicas sobre a implementação seguem em aberto, como regras de transição, prazos de adequação e efeitos sobre acordos coletivos. Isso não diminui a urgência do tema. Pelo contrário: é uma mudança que atinge o coração da loja física e precisa ser estudada desde já. No salão, o cliente quer porta aberta e atendimento atento; na planilha, qualquer ajuste de turno sem ganho real de produtividade consome margem. A conta não fecha com discursos inflamados nem com cortes cegos. Ela exige rever escalas, processos e o uso da tecnologia dentro da loja.
Um projeto de negócio. Antes de agir, é preciso estudar. E estudar essas mudanças não é tarefa de uma área isolada: elas atravessam compras, precificação, tecnologia, operação de loja, RH, jurídico e finanças ao mesmo tempo. Por isso, o primeiro movimento é organizacional. Um comitê de transição, com representantes de cada área, permite que quem conhece a realidade de cada ponta contribua com o diagnóstico e com as soluções. Isso exige uma cultura colaborativa, em que as decisões sejam construídas em conjunto e não empurradas de um departamento para o outro. Não é um projeto de uma área só. É um projeto de negócio.
E nenhum projeto desse tamanho avança sem lideranças preparadas para conduzir a transformação. Cabe a elas traduzir a complexidade para as equipes, abrir espaço para a participação de todos e manter o rumo quando o caminho ficar mais pedregoso. Para desafios dessa complexidade, não existe mapas prontos: o caminho se constrói enquanto se caminha.
Costumo dizer que reclamação precisa gerar ação. Por isso, acredito que o varejo que vai prosperar nessa travessia não é o que reclama ou tenta achar culpados, mas o que consegue usar as dificuldades como oportunidades e transformar cada pedra do caminho em parte de uma fundação mais sólida e perene. Vamos em frente.






