O lado oculto das redes: processo bilionário expõe falhas graves da Meta

Empresa é acusada de permitir exposição de adolescentes a conteúdo sexual explícito e contato com predadores, em decisão considerada inédita nos Estados Unidos

MERCADOTECNOLOGIA

Por Redação InfoDot

3/27/20263 min read

Há momentos em que a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e passa a ser um reflexo direto das escolhas humanas. Quando plataformas que conectam bilhões também expõem vulnerabilidades profundas, o debate deixa de ser técnico e se torna ético. É nesse contexto que surge uma das decisões judiciais mais relevantes sobre segurança digital infantil.

Um júri no estado do Novo México, nos Estados Unidos, determinou que a Meta pague US$ 375 milhões, cerca de R$ 2 bilhões, por ter induzido usuários ao erro sobre o nível de proteção oferecido a crianças e adolescentes em suas plataformas. A companhia, responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp, foi considerada culpada por violar a Lei de Práticas Desleais ao permitir que jovens fossem expostos a conteúdos sexualmente explícitos e a interações com predadores.

A decisão foi classificada como “histórico” pelo procurador-geral do estado, Raúl Torrez, que ressaltou tratar-se da primeira vitória judicial de um estado americano contra a empresa nesse tipo de acusação. Em resposta, a Meta, liderada por Mark Zuckerberg, declarou por meio de sua porta-voz que discorda do veredito e pretende recorrer. “Trabalhamos arduamente para proteger as pessoas em nossas plataformas e somos claros sobre os desafios de identificar e remover agentes mal-intencionados e conteúdo prejudicial”, afirmou. “Continuamos confiantes em nosso histórico de proteção de adolescentes online.”

Ao longo de sete semanas de julgamento, o júri analisou documentos internos e ouviu depoimentos de ex-integrantes da companhia. Entre eles, Arturo Béjar, ex-chefe de engenharia que deixou a empresa em 2021 e passou a atuar como denunciante, destacou experimentos conduzidos no Instagram que evidenciavam a exposição de menores a conteúdos de natureza sexual.

Os promotores também apresentaram dados de pesquisas internas indicando que, em determinado período, 16% dos usuários do Instagram relataram ter recebido exibição não solicitada de nudez ou atividade sexual em apenas uma semana. A defesa da empresa sustentou que esforços contínuos vêm sendo feitos para combater abusos e reforçar a segurança dos mais jovens.

Entre essas iniciativas, a Meta destacou o lançamento, em 2024, das chamadas “Contas para Adolescentes”, que ampliam controles e restrições para esse público. Mais recentemente, a plataforma também passou a oferecer um recurso que notifica responsáveis quando há busca por conteúdos relacionados à automutilação.

O valor total da penalidade foi calculado a partir da constatação de milhares de infrações à legislação estadual, cada uma sujeita a multa de até US$ 5 mil. Paralelamente, a empresa ainda enfrenta outro processo em Los Angeles, no qual uma jovem afirma ter desenvolvido dependência de plataformas digitais como Instagram e YouTube, do Google, ainda na infância, atribuindo isso ao design considerado intencionalmente viciante desses serviços. Casos semelhantes somam milhares em tramitação no sistema judicial dos Estados Unidos.

A ação movida em 2023 pelo estado do Novo México sustenta que a Meta teria direcionado adolescentes a conteúdos sexualmente explícitos, incluindo material de abuso infantil, além de expô-los a solicitações desse tipo e situações relacionadas ao tráfico sexual. Segundo a acusação, os próprios algoritmos de recomendação da empresa teriam desempenhado papel central nesse processo, ao priorizar e amplificar esse tipo de conteúdo.

“Os executivos da Meta sabiam que seus produtos prejudicavam crianças, ignoraram os alertas de seus próprios funcionários e mentiram ao público sobre o que sabiam”, declarou Raúl Torrez. “Hoje, o júri se juntou a famílias, educadores e especialistas em segurança infantil para dizer que já chega.”

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