O peso da dívida que a América Latina ainda não conseguiu deixar para trás
Dados do FMI mostram que 16 dos 21 países da região mantêm hoje dívida pública superior à observada antes da pandemia, com poucos casos abaixo de 50% do PIB.
ECONOMIA
Por Redação InfoDot
1/28/20263 min read
Crises costumam deixar marcas que resistem ao tempo, especialmente quando afetam as contas públicas. Mesmo com a normalização da atividade econômica, os efeitos fiscais da pandemia seguem presentes em grande parte da América Latina. O endividamento elevado continua sendo um desafio central para os governos da região.
Levantamento com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) indica que, entre os 21 países integrantes do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), 16 registram atualmente uma relação entre dívida bruta e Produto Interno Bruto superior à observada antes da Covid-19. Apenas quatro países apresentam endividamento inferior a 50% do PIB.
Segundo Marco Oviedo, estrategista da XP, o impacto da pandemia sobre as contas públicas não se limita ao aumento do estoque da dívida. Para ele, o quadro é agravado pelo custo do endividamento, pressionado por taxas de juros globais mais elevadas e por um ambiente de maior incerteza em relação à trajetória fiscal.
“Não é só o nível da dívida, mas o custo do serviço, dado o aumento das taxas globais de juros e a maior volatilidade do cenário macroeconômico”, afirmou.
Entre os países com situação mais delicada está o Brasil. Pela metodologia do FMI, a dívida bruta brasileira se aproxima de 90% do PIB e tende a continuar avançando nos próximos anos, com projeção de estabilização ao redor de 98% do PIB ao fim da década. A avaliação é de que o quadro fiscal brasileiro figura entre os mais frágeis da região.
“A fotografia fiscal do Brasil é de fato ruim, uma das piores da região. A Argentina tem um nível de dívida parecido, mas apresenta um discurso mais consistente de ajuste fiscal e redução do endividamento. Colômbia e Uruguai têm resultados primários negativos, mas partem de níveis de dívida bem mais baixos”, avalia Andrea Damico, da consultoria Buysidebrazil.
Apesar da melhora recente dos indicadores argentinos sob o governo de Javier Milei, Oviedo pondera que a situação do país ainda inspira cautela. Segundo ele, permanecem dúvidas sobre a continuidade do ajuste fiscal, especialmente diante do histórico de mudanças de rumo e da ausência de regras fiscais sólidas. O acesso restrito aos mercados de capitais e a composição da dívida também ampliam os riscos.
“Uma dívida de 80% do PIB não é igual a outra de 80% do PIB. Importa se ela é doméstica, de longo prazo e em moeda local, ou se é dolarizada, indexada e concentrada no setor público”, explica o estrategista da XP.
Outros países da região apresentam cenários distintos. Na Colômbia, a adoção de uma política fiscal mais expansionista contribuiu para o aumento do déficit, e a estabilização da dívida dependerá de uma mudança significativa de direção, cuja credibilidade será determinante para a confiança do mercado.
No Chile, o contexto é considerado mais equilibrado. Embora existam desafios fiscais, o país conta com um arcabouço institucional visto como âncora relevante para a política econômica, o que sustenta expectativas de maior previsibilidade no médio prazo.
Já no México, análise do Itaú Unibanco aponta que a dívida pública se encontra em um patamar desconfortável, mas ainda distante de uma situação crítica, com ajustes em andamento principalmente por meio do aumento da arrecadação. No Peru, o processo de consolidação fiscal tem sido favorecido pela alta dos preços dos metais, fator que reforça as receitas do governo.
Enquanto os números seguem pressionados, o desafio fiscal permanece como um dos principais testes para a sustentabilidade econômica da região.






