

ONU revela quando o crescimento do Brasil deve, enfim, ganhar tração
A Organização das Nações Unidas projeta crescimento moderado para o Brasil até 2026, pressionado por juros elevados e desafios fiscais, com aceleração prevista apenas a partir de 2027.
MERCADOECONOMIA
Por Redação InfoDot
1/9/20264 min read
O movimento da economia costuma carregar marcas do passado. Decisões tomadas anos antes continuam influenciando o presente, moldando ritmos, expectativas e limites. É sob essa lógica que a Organização das Nações Unidas avalia o cenário econômico brasileiro nos próximos anos.
Segundo relatório divulgado nesta quinta-feira (8), a ONU estima que o Produto Interno Bruto do Brasil cresça 2% em 2026, ano de eleição presidencial. O resultado, se confirmado, indicará uma desaceleração frente a 2025, quando a economia brasileira deve ter avançado 2,5%, de acordo com a própria entidade, sediada em Nova York, nos Estados Unidos.
Na atualização das projeções, a organização manteve a estimativa para 2026, mas revisou para cima, em 0,7 ponto porcentual, a previsão de crescimento para 2025. Ainda assim, o desempenho recente já representa perda de fôlego na comparação com 2024, período em que o país registrou expansão de 3,4%.
Para a ONU, esse arrefecimento está ligado principalmente aos efeitos prolongados da política monetária. “A desaceleração projetada reflete os efeitos defasados do aperto monetário, que elevou as taxas de juros a níveis mais altos em décadas e continua a pesar sobre o investimento”, afirma o relatório publicado nesta quinta-feira.
O documento também menciona fatores externos adversos. De acordo com a organização, “ventos contrários adicionais surgiram das tarifas recentemente impostas pelos Estados Unidos, de até 50%, sobre uma ampla gama de importações brasileiras”. Ainda assim, o impacto geral tende a ser limitado, já que os Estados Unidos respondem por cerca de 12% das exportações do Brasil e o governo do presidente Donald Trump recuou na taxação de diversos segmentos da pauta exportadora nacional.
Na avaliação da ONU, o país só deve recuperar um ritmo mais forte de crescimento a partir do próximo governo. Para 2027, a expectativa é de que a economia brasileira avance 2,3%.
Em termos regionais, o Brasil deve apresentar desempenho superior ao da média da América Latina e do Caribe em 2025, cuja economia cresceu 2,4% no ano passado. No entanto, a tendência é de que o país passe a crescer em ritmo inferior ao da região nos anos seguintes.
Na comparação com México e América Central, o relatório aponta que o Brasil demonstrará maior vigor econômico em 2025, 2026 e 2027, embora deva perder essa posição relativa justamente em 2027, segundo as estimativas da organização.
Os desafios fiscais seguem no centro das preocupações. A relação entre a dívida bruta do governo geral e o PIB ultrapassou 90% no ano passado, atingindo 91,4%, frente a 87,3% em 2024. O patamar está acima da média dos países em desenvolvimento, cuja proporção avançou de 73% para 76,9% no mesmo período.
A ONU ressalta que desvios recentes dificultam o fortalecimento da credibilidade fiscal. “Desvios recentes do arcabouço fiscal, em meio a isenções fiscais temporárias, despesas acima do planejado e o uso de linhas de crédito extraordinárias, ressaltam os desafios contínuos em reforçar a credibilidade fiscal, mesmo que as autoridades mantenham um compromisso de médio prazo com a consolidação gradual”, diz o relatório.
No campo da inflação, a organização avalia que o Brasil não deve cumprir a meta em 2025. A estimativa é de que o IPCA tenha encerrado o ano passado em 5%, acima da meta contínua de 3%, que admite tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo.
“No Brasil, a inflação geral permanece teimosamente acima da meta do banco central, apesar das taxas de juros estarem em níveis mais altos em várias décadas”, observa a ONU. A projeção supera o consenso de mercado, cuja mediana, apurada pelo Projeções Broadcast, indica inflação de 4,27% em 2025. O resultado oficial do IPCA será divulgado nesta sexta-feira (9).
Para os anos seguintes, a entidade projeta convergência gradual da inflação, com o índice alcançando 4,3% em 2026 e 4% em 2027.
Em relação à política monetária, o Brasil foi classificado como uma “exceção importante” em 2025, em meio ao movimento de afrouxamento observado em países em desenvolvimento da Ásia, da América Latina e do Caribe. Ainda assim, a ONU avalia que o país deve voltar a reduzir os juros.
“Após um aperto substancial na primeira metade de 2025, o Banco Central do Brasil manteve sua taxa de política em 15%, a mais alta desde 2006, com um ciclo de afrouxamento esperado para começar em 2026, à medida que a inflação modera”, aponta o relatório.
Apesar do cenário desafiador, a organização destaca avanços no mercado de trabalho. O Brasil aparece entre os países em desenvolvimento que conseguiram reduzir o desemprego e elevar o salário mínimo em 2025.
“O Brasil atingiu o menor índice de desemprego em décadas”, destaca a ONU. Em novembro de 2025, a taxa estava em 5,2%.
Entre projeções, alertas e comparações regionais, o diagnóstico da ONU indica que o crescimento brasileiro segue condicionado por escolhas feitas no passado e pela capacidade de ajuste no presente.
Os ciclos econômicos ensinam que desacelerar nem sempre significa parar, mas pode ser parte do caminho até o próximo impulso.






