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QUANDO É TEMPO DE PARAR?
Resiliência, teimosia e o check-up de carreira para reconhecer a hora de mudar
CULTURA E DECISÕESBUSINESSSAÚDEESTRATÉGIA
Por Gabriel Ferraz | Papo de Progresso
9/30/20266 min read
Persistir pode nos levar longe. Perceber quando o caminho deixou de ensinar, começou a ferir ou se afastou de nossos valores também é uma forma de coragem.
Aos 19 anos, saí de Jaú e cheguei a São Paulo com dez reais no bolso. Naquele momento, parar parecia um luxo que eu não tinha. Era preciso trabalhar, aprender, fazer contatos e seguir em frente. Essa decisão abriu caminhos que eu não conseguia enxergar de onde estava.
Hoje, depois de anos dedicados a Gente & Gestão, mentorias, comunicação e ao Papo de Progresso, faço uma pergunta diferente: seguir em frente exige continuar exatamente no mesmo caminho? Estudar Gestão de Pessoas no MPGC da FGV EAESP ampliou meu interesse por essa tensão entre desempenho, sentido e bem-estar. Já vi pessoas talentosas confundirem exaustão com compromisso. Às vezes, eu mesmo preciso lembrar que movimento e progresso não são sinônimos.
Resiliência ou Teimosia
Em Pense de Novo, Adam Grant nos convida a tratar nossas convicções como hipóteses, abertas a revisão quando surgem novos fatos. A humildade cognitiva começa quando admitimos que nossa primeira resposta talvez não seja a melhor. Esse hábito é especialmente importante nas decisões de carreira: uma escolha feita aos 20 anos não precisa governar, sem perguntas, a pessoa que nos tornamos aos 40.
Resiliência é sustentar um objetivo valioso enquanto ajustamos os meios. Teimosia aparece quando defendemos um plano só porque já investimos tempo, dinheiro ou reputação nele. Grant chama atenção para a escalada do comprometimento: quanto mais sacrificamos por um caminho, mais difícil pode ser reconhecer que ele precisa mudar. O esforço passado merece respeito, mas não determina sozinho o próximo passo.
Uma pergunta ajuda a distinguir as duas coisas: se eu estivesse escolhendo hoje, com o que sei agora, assumiria esse mesmo trabalho, nessa mesma forma e sob essas mesmas condições? A resposta não precisa produzir uma demissão amanhã. Ela pode revelar a necessidade de descansar, pedir apoio, renegociar limites, mudar de equipe, redesenhar a função ou preparar outra direção.


O bem-estar é um dado da decisão
A terceira edição do Engaja S/A, conduzida pela Flash em parceria com a FGV EAESP, ouviu 5.397 trabalhadores brasileiros em 2025. Somente 39% foram classificados como engajados, o menor patamar da série. No mesmo levantamento, 60% disseram ter pensado em pedir demissão com alguma frequência. Cerca de um em cada cinco trabalhadores relatou conviver diariamente com ansiedade, insônia ou fadiga.
O estudo estimou em R$ 77 bilhões por ano as perdas associadas à rotatividade e ao presenteísmo. Esse valor é uma estimativa econômica coletiva, não uma sentença sobre a produtividade de cada pessoa. Os resultados, porém, nos obrigam a olhar para as condições de trabalho: confiança na liderança, desenvolvimento, clareza das práticas de gestão e um ambiente saudável. Como observa a pesquisa, remuneração importa, mas não compensa indefinidamente um clima ruim.
Quando o corpo dá sinais persistentes, o aprendizado estagna e os valores que orientam a vida já não cabem na rotina, é hora de fazer uma pausa deliberada. Um dado coletivo não decide se você deve sair; sua história, suas condições financeiras e as alternativas disponíveis também importam. O primeiro passo é ouvir os sinais com seriedade e conversar com pessoas capazes de ajudar a enxergar opções.
Meu check-up de carreira
Adam Grant propõe uma revisão periódica da carreira, mesmo quando nada parece errado. Eu gosto de chamar essa conversa comigo mesmo de check-up de carreira. Ela me ajuda a rever escolhas sem desprezar o que construí. Se o jovem que chegou a São Paulo com dez reais precisava conquistar espaço, o profissional que hoje orienta pessoas, apresenta um podcast e estuda Gestão de Pessoas precisa perguntar também onde sua contribuição faz sentido e quais custos está disposto a assumir.
A frase que me acompanha no Papo de Progresso é: “Nosso Progresso é para o benefício de muitos”. Justamente por isso, preciso prestar atenção à maneira como avanço. O desejo de contribuir não elimina a necessidade de limites, descanso e decisões revistas à luz da realidade.


Sugiro reservar meia hora, papel e caneta, para responder a cinco perguntas. Repeti-las a cada seis meses ajuda a perceber o que mudou antes que a rotina responda por nós:
1. Quando minhas aspirações profissionais se formaram e o que mudou em mim desde então?
2. O que ainda posso aprender no trabalho atual? Cheguei a um platô que pede uma nova função, um novo ambiente ou outra rota?
3. Qual convicção sobre minha carreira eu revi nos últimos 90 dias diante de fatos ou feedback?
4. Que mudança pequena e concreta posso testar nos próximos 90 dias antes de tomar uma decisão maior?
5. Quem faz parte da minha rede de apoio e tem liberdade para desafiar meu raciocínio com respeito?
O psicólogo George Kelly estudou como construímos e revisamos as interpretações que usamos para compreender a realidade. Gosto de imaginar essas interpretações como lentes: elas ajudam a enxergar, mas também podem limitar nosso campo de visão. Por isso, acrescento uma pergunta ao check-up: que encontro, leitura ou conversa me fez perceber algo diferente nos últimos meses?
Parar também pode ser uma escolha de progresso
Depois das respostas, vale separar três possibilidades.
1. Se o trabalho ainda faz sentido e há espaço para mudança, converse sobre prioridades, jornada e oportunidades de aprendizado.
2. Se o ambiente continua cobrando um preço alto apesar das tentativas de ajuste, prepare a transição com cuidado.
3. Se a saúde está comprometida, procure apoio adequado e dê a esse sinal a importância que ele merece.
Cada possibilidade pede tempo e condições diferentes; nenhuma exige decidir por impulso.
Minha menção honrosa vai a Don Clifton, à Gallup e a Tom Rath, que ajudaram a difundir a ciência dos pontos fortes. A Psicologia Positiva amplia essa reflexão: além de reconhecer meus talentos, quero compreender minhas forças de caráter, aquilo que se torna uma assinatura nas escolhas que faço e na maneira como contribuo. Saber o que faço bem revela possibilidades; saber que pessoa desejo ser ajuda a escolher quais delas merecem minha energia.
Nas transições de carreira, contar com um mentor executivo pode fazer diferença. Um bom mentor não decide por nós. Ele nos ajuda a questionar certezas, perceber pontos cegos e transformar inquietações em passos possíveis, sem perder de vista a saúde, os vínculos e as condições concretas da vida.
É com esse cuidado que procuro meu ikigai: uma razão para viver e contribuir que também se cultiva fora do trabalho. Nenhum cargo precisa carregar sozinho todo o sentido de uma vida. Mudanças estruturais são gradativas. Às vezes, começam com uma conversa honesta, um limite renegociado ou uma experiência pequena. Nada como um dia após o outro dia para perceber que pausar, aprender e recomeçar também são formas de progresso.
Agradeço à equipe da InfoDot pela confiança e por abrir espaço para uma conversa que alcança tanta gente. Que esta coluna lhe dê coragem para continuar quando houver sentido, para ajustar quando houver aprendizado e para parar quando a vida pedir outra direção.
🎙️ NOSSO PROGRESSO É PARA O BENEFÍCIO DE MUITOS.
Referências
GRANT, Adam. Pense de Novo. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. Guia de discussão do autor: https://adamgrant.net/wp-content/uploads/2021/03/ThinkAgainDiscussionGuide.pdf
FGV EAESP. Engajamento no trabalho cai ao menor nível da série histórica e gera perda anual de R$ 77 bilhões. 3 nov. 2025. https://portal.fgv.br/noticias/engajamento-no-trabalho-cai-ao-menor-nivel-da-serie-historica-e-gera-perda-anual-de-r-77
GALLUP. Learn About the Science of CliftonStrengths. https://www.gallup.com/cliftonstrengths/en/253790/science-of-cliftonstrengths.aspx






