

R$ 940 bilhões em custos: por que a logística brasileira chegou ao limite
Custos crescentes, infraestrutura limitada e escassez de profissionais pressionam o setor, que deposita na digitalização a esperança de ganhos expressivos de produtividade.
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Por Redação InfoDot
1/7/20264 min read
Toda cadeia produtiva revela suas fragilidades quando o crescimento acelera demais. No caso da logística, eficiência deixou de ser apenas meta e passou a ser condição de sobrevivência em um ambiente cada vez mais caro e complexo. É nesse cenário que o setor brasileiro entra em um período decisivo, marcado pela tensão entre limitações históricas e expectativas elevadas de transformação tecnológica.
O retrato desse momento aparece no Infor Reports 2025 – Inovação na Logística, estudo global da Infor realizado em 15 países. No Brasil, 81% das empresas de distribuição afirmam esperar um aumento de produtividade superior a 20% nos próximos três a cinco anos. Para 79% dessas companhias, alcançar esse desempenho depende diretamente da adoção de tecnologias avançadas, ainda que a base operacional continue enfrentando obstáculos conhecidos.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Em 2025, os custos com transporte superaram R$ 940 bilhões no país, crescimento de quase 7% em relação ao ano anterior, segundo dados do ILOS. A predominância do transporte rodoviário, somada às diferenças na qualidade da malha viária entre regiões, segue pesando sobre prazos e margens. Dentro dos centros de distribuição, a pressão também aumentou, o custo de estocagem passou de 18% para 23% entre 2022 e 2023, impulsionado pela baixa previsibilidade da demanda e pela limitada integração entre sistemas de gestão.
O ambiente físico da logística reflete essa pressão por eficiência. De acordo com a Colliers, a taxa de vacância dos condomínios logísticos caiu para 7,2% no segundo trimestre de 2025, o menor patamar desde 2016. O dado aponta para um mercado aquecido, influenciado pela expansão do e-commerce e pela fragmentação das cadeias de suprimentos, mas também reforça a urgência de operações mais produtivas em espaços cada vez mais disputados.
Rafael Pinto, vice-presidente de Fulfillment da Daki e um dos especialistas entrevistados no relatório, sintetiza esse impasse estrutural. “Temos uma infraestrutura defasada, custos elevados e uma cadeia bastante fragmentada. Em outras palavras, é preciso garantir eficiência e velocidade em um ambiente de gargalos estruturais”, afirma.
Diante desse quadro, a digitalização deixa de ser opcional e assume papel estratégico. O estudo destaca que a inovação tecnológica amplia a visibilidade das operações e ajuda a contornar limitações estruturais. Ainda assim, a evolução ocorre de maneira desigual. Levantamento do Mundo Logística indica que 71% das empresas brasileiras já investem em tecnologia para modernizar processos, porém a jornada esbarra em restrições orçamentárias, dificuldades de integração e baixa maturidade no uso de dados.
Essa percepção é reforçada pela pesquisa O Armazém do Futuro, realizada pela Infor com 51 empresas de distribuição. Para 55% dos participantes, a maturidade tecnológica insuficiente é o principal entrave do setor. Outros 53% mencionam a falta de profissionais qualificados, enquanto 47% apontam a dificuldade de desenvolver lideranças com competências digitais.
A escassez de talentos não é isolada. Dados da FGV mostram que 80% das empresas enfrentam obstáculos para contratar profissionais nas áreas de logística, tecnologia e operações. Quando o recorte se concentra em transporte e supply chain, o índice sobe para 91%, segundo a Manpower Group. Esse contexto ajuda a explicar por que as próprias organizações avaliam sua maturidade digital em apenas 2,71 em uma escala de 1 a 5, abaixo dos 3,24 que atribuem aos concorrentes.
Para Waldir Bertolino, country manager da Infor Brasil, a tecnologia já atua como elemento de equilíbrio nesse cenário adverso. “A digitalização é essencial para compensar a falta de mão de obra e o aumento da complexidade operacional. Ferramentas de inteligência artificial, automação e analytics já ajudam empresas a reduzir custos, antecipar gargalos e otimizar o uso de pessoas”, diz.
Ainda assim, o levantamento ressalta que soluções digitais não operam milagres sozinhas. Avançar exige mudanças culturais profundas, liderança orientada por dados, ambientes colaborativos e investimentos contínuos em capacitação. Na prática, a inovação deixa de ser vantagem competitiva e passa a funcionar como requisito básico para manter a operação de pé em uma logística cada vez mais pressionada.
Em um setor onde os gargalos persistem, a capacidade de se reinventar pode ser o único caminho entre o custo elevado e a sustentabilidade operacional.






