Reforma Tributária exigirá mudança de estratégia nas empresas, dizem especialistas

A nova fase da tributação brasileira deve ampliar o uso de dados em tempo real e obrigar empresas a rever contratos, margens, sistemas e estratégias comerciais até 2033.

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Por Redação InfoDot

5/27/20264 min read

Mudanças estruturais costumam provocar impactos muito além do objetivo inicial. Quando a transformação envolve tecnologia, fluxo financeiro e fiscalização em tempo real, empresas e governo passam a operar sob uma lógica completamente diferente. É nesse cenário que a Reforma Tributária brasileira começa a redesenhar processos, decisões e estratégias de mercado.

Durante o Painel 3 do Fórum TIC na Reforma Tributária, representantes do governo, da Receita Federal, do Serpro e da iniciativa privada discutiram como a tecnologia será determinante para viabilizar o IVA Dual e o sistema de split payment. O consenso entre os participantes foi de que a digitalização será a base operacional de toda a nova estrutura tributária.

O economista Bernard Appy afirmou que o modelo brasileiro só se tornou viável graças ao avanço da documentação fiscal eletrônica. Segundo ele, a nova arquitetura permitirá uma capacidade inédita de monitoramento das operações formais da economia nacional. Teremos o PIB diário do Brasil e uma base de dados estatísticos fabulosa, declarou.

Appy explicou ainda que diversas pesquisas atualmente realizadas por amostragem poderão ser substituídas por informações completas produzidas pelo próprio sistema tributário digital. Para o setor privado, ele destacou que o volume de dados consolidados sobre compras e vendas exigirá uma evolução significativa dos sistemas de gestão empresarial, os chamados ERPs. As empresas terão um poder muito grande de pensar estratégia a partir desses dados, afirmou.

Na avaliação de Robson Lima, a estrutura digital brasileira coloca o país em posição diferenciada internacionalmente. Estamos entre os seis maiores digitais da OCDE. O digital é o caminho não apenas para a questão tributária, mas para a geração de dados, disse. Ele também classificou a reforma como “o maior projeto” já conduzido pelo setor público na área de tecnologia.

A dimensão da mudança foi comparada ao impacto provocado pelo Pix no sistema financeiro brasileiro. Norberto Maraschin declarou que A reforma representa para os impostos o que o Pix representou para os pagamentos. Segundo ele, o novo modelo tende a reduzir o chamado “custo Brasil”, além de acelerar uma adaptação tecnológica e cultural dentro das empresas.

Já Marcos Hübner Flores afirmou que o Brasil reúne características únicas para implementar o novo formato tributário. Só o Brasil combina toda essa estrutura tecnológica no governo, no sistema financeiro e na Receita, destacou. De acordo com Flores, a implantação seria inviável há dez anos, mas o amadurecimento institucional e tecnológico tornou o projeto possível neste momento.

O funcionamento do split payment esteve entre os principais temas debatidos no painel. O mecanismo separa automaticamente o valor do imposto no momento da transação comercial, reduzindo riscos de inadimplência e fraudes fiscais. Flores resumiu o funcionamento da ferramenta afirmando que O split quita o débito de quem deve e garante o crédito de quem cobra.

Segundo Robson Lima, o modelo nacional contará com três formatos de split payment, superinteligente, inteligente e simplificado. Todos já preparados para eventuais contingências tecnológicas. A proposta prevê integração direta entre meios de pagamento, instituições financeiras e os cofres públicos, buscando preservar o fluxo de caixa das empresas.

Bernard Appy também avaliou que o sistema brasileiro poderá servir de referência para outros países. O split só funciona porque temos um sistema de pagamentos avançado. Pode ser que exportemos esse modelo, afirmou.

Além das adequações fiscais e tecnológicas, os especialistas alertaram para mudanças estratégicas dentro das companhias. Appy destacou que será necessário revisar preços, contratos, margens e modelos comerciais considerando as regras de recuperação de créditos previstas no IVA Dual. A empresa precisa entender como ficará sua margem depois da reforma, declarou.

Embora a transição esteja prevista para ocorrer gradualmente até 2033, os participantes reforçaram que o processo de adaptação já começou. Para Maraschin, empresas que tiverem maior eficiência tecnológica e melhor controle dos créditos tributários tendem a ampliar competitividade. Quem tiver melhor gestão de créditos e mais eficiência ganhará market share, afirmou. Ele também observou que muitas organizações ainda tentam manter sistemas antigos incompatíveis com a nova dinâmica tributária.

O volume de informações que será processado pela nova estrutura chamou atenção dos debatedores. Lima revelou que o sistema deverá lidar com cerca de 100 bilhões de documentos fiscais por ano, gerando até 1 trilhão de transações anuais armazenadas em bancos públicos de dados. Segundo ele, essa operação exigirá investimentos em nuvem soberana, duplicação de sites e expansão da infraestrutura tecnológica nacional.

Ao final do painel, os participantes defenderam que a combinação entre digitalização, inteligência de dados e reforma tributária pode colocar o Brasil entre os sistemas mais avançados do mundo em administração tributária digital.

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