

Relatório hipotético sobre IA e desemprego sacode mercados e amplia temor em Wall Street
Um cenário hipotético para 2028, no qual a inteligência artificial amplia o desemprego e enfraquece o consumo, viralizou e provocou reação imediata nos mercados. O documento ganhou repercussão em meio a um ambiente já sensível a riscos ligados à automação.
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Por Redação InfoDot | Fonte: InfoMoney
2/25/20264 min read
Transformações tecnológicas costumam gerar entusiasmo e temor em igual medida. Quando projeções extremas ganham visibilidade em períodos de incerteza, o impacto psicológico sobre investidores pode ser tão relevante quanto os fundamentos econômicos. Foi nesse contexto que um relatório extenso divulgado no domingo, 22, à noite passou a influenciar o humor do mercado financeiro.
O material, com cerca de 7 mil palavras e assinado pela Citrini Research, descreve uma hipótese em que a inteligência artificial provoca forte deslocamento de trabalhadores de escritório, retração do consumo e efeitos em cadeia no sistema financeiro até 2028.
Na segunda-feira seguinte, a aversão ao risco se refletiu nos índices acionários. O Wall Street registrou quedas relevantes, com o Dow Jones recuando 1,7%, o S&P 500 cedendo 1% e o Nasdaq perdendo 1,1%. Entre os papéis mais pressionados estavam empresas mencionadas no estudo, como American Express, KKR e Blackstone.
A tese central parte da premissa de que a inteligência humana sempre foi um recurso escasso na economia. Com a IA reduzindo essa limitação, o documento sugere compressão do valor do trabalho intelectual, conceito descrito como “obsolescência humana”.
“As margens se expandiram, lucros superaram expectativas, ações subiram. Lucros corporativos recordes foram canalizados de volta para computação de IA”, afirma o relatório ao apresentar a dinâmica retrospectiva do cenário.
Na sequência, o texto sustenta que custos trabalhistas cairiam e o crescimento real dos salários perderia força, resultando em substituição de funções administrativas e técnicas. “A IA agora é uma inteligência geral que melhora justamente nas tarefas para as quais antes realocávamos humanos. Programadores deslocados não podem simplesmente migrar para ‘gestão de IA’, porque a IA já é capaz disso”.
Dentro da simulação, a taxa de desemprego nos Estados Unidos alcançaria 10,2% em 2028, enquanto o S&P 500 sofreria desvalorização acumulada de 38% entre o pico e o fundo do movimento.
Outro ponto relevante do documento é a ideia de “PIB fantasma”, expressão utilizada para descrever produção gerada por sistemas automatizados que aparece nas estatísticas econômicas, mas não se traduz em consumo efetivo, já que máquinas não realizam gastos.
Com menor renda disponível às famílias, a demanda enfraqueceria, pressionando margens corporativas e incentivando ainda mais automação, criando um ciclo de retroalimentação. Negócios baseados em intermediação e taxas seriam especialmente expostos, incluindo plataformas como DoorDash e redes de pagamento como Mastercard.
O relatório também destaca vulnerabilidades no crédito privado, particularmente em empresas de software apoiadas por private equity. Caso clientes passem a desenvolver soluções internas com apoio de IA, contratos caros poderiam perder relevância, elevando riscos de inadimplência em um mercado estimado em US$ 1,8 trilhão.
Apesar da repercussão, a própria casa enfatiza que o conteúdo descreve apenas um exercício hipotético, não uma previsão formal.
A empresa responsável pelo estudo foi fundada em 2023 por James van Geelen, profissional com formação em biologia e psicologia que atuou como paramédico em Los Angeles antes de vender uma empresa de saúde e migrar para análises macro e temáticas. Ele ganhou notoriedade ao antecipar tendências ligadas à IA e a medicamentos para perda de peso baseados em GLP-1.
A Substack abriga a principal página de finanças da casa, que soma mais de 122 mil assinantes e cobra mensalidade de US$ 125. Segundo Van Geelen, seu portfólio pessoal registra valorização superior a 200% desde maio de 2023. O relatório foi elaborado em parceria com Alap Shah.
Para parte dos analistas, a repercussão ocorreu em um mercado já fragilizado. O economista Joseph Steinberg, da University of Toronto, escreveu em coluna no Financial Times que o estudo funcionou como catalisador para uma realização de lucros que já vinha em curso.
Os movimentos recentes reforçam essa leitura. O índice de software dos EUA acumula queda de 24% no ano e supera 30% desde o pico registrado em outubro, refletindo incertezas sobre o impacto competitivo da IA.
Ao mesmo tempo, investidores têm promovido uma rotação dentro do próprio tema, reduzindo exposição a empresas consideradas vulneráveis à automação e direcionando capital para fabricantes de chips, data centers e fornecedores de energia.
Steinberg também questionou a consistência do conceito de “PIB Fantasma”, destacando que o crescimento do produto exige expansão de algum componente da identidade contábil, como consumo, investimento, gasto público ou exportações líquidas. Na sua avaliação, investimentos só se mantêm se houver expectativa de demanda futura.
A postura predominante entre gestores tem sido de cautela analítica. “Eu levaria a sério, mas não literalmente”, afirmou Nick Ferres, da Vantage Point Asset Management, em declaração à Reuters, ao defender que a capacidade de adaptação econômica pode ser maior do que a projetada no estudo.
Entre entusiasmo tecnológico e receios estruturais, o episódio reforça como narrativas plausíveis podem influenciar mercados mesmo quando baseadas em cenários hipotéticos.
A velocidade da inovação desafia previsões definitivas e lembra que o futuro econômico costuma ser moldado tanto por tecnologia quanto pela capacidade humana de adaptação.






