

Saúde mental vira bomba-relógio nas empresas e afastamentos já preocupam o mercado
O crescimento silencioso do adoecimento emocional no trabalho vem deixando marcas profundas na rotina corporativa. Quando o limite entre produtividade e exaustão desaparece, o impacto deixa de atingir apenas indivíduos e passa a comprometer equipes inteiras e a própria operação das empresas.
SAÚDEMERCADO
Por Redação InfoDot
5/13/20264 min read
O avanço dos transtornos mentais no ambiente corporativo brasileiro ganhou novos contornos em 2025. Dados levantados pela Suridata, plataforma especializada em inteligência em saúde corporativa, mostram que os afastamentos ligados à saúde mental aumentaram cinco vezes em relação ao ano anterior. O estudo analisou 45.240 atestados médicos emitidos entre 2022 e 2025.
Além do crescimento acelerado dos casos, a pesquisa aponta que licenças motivadas por burnout, ansiedade e depressão têm duração média duas vezes maior do que afastamentos causados por outras doenças.
Na avaliação de Daniel Barra, CEO da Suridata, o cenário atual indica uma mudança mais brusca do que um simples aumento gradual nos índices.
“Os dados da Suridata mostram não uma curva de crescimento gradual, mas uma ruptura”, afirma o executivo. “O modelo vem ultrapassando, sucessivamente, o que já parecia ser seu limite.”
Segundo Barra, três fatores ajudam a explicar o avanço dos casos: os efeitos acumulados da pandemia, o aprimoramento nos diagnósticos relacionados à saúde mental e a intensificação da cobrança por resultados em estruturas corporativas que ainda não se adaptaram ao novo contexto de trabalho.
A diretora de saúde da Suridata, Mariana Brambilla, afirma que o período posterior à pandemia acelerou problemas emocionais que já existiam de forma latente entre os trabalhadores.
“O corpo e a mente cobraram a conta assim que a rotina tentou voltar ao normal”, diz.
O impacto do adoecimento emocional também começa a atingir diretamente os custos operacionais das empresas. Para Barra, o tema deixou de ser tratado apenas como pauta de qualidade de vida e passou a representar risco à continuidade dos negócios, afetando produtividade, reajustes de planos de saúde corporativos e estabilidade das equipes.
“O funcionário que sai leva conhecimento acumulado. A equipe que absorve a demanda começa a adoecer na sequência”, afirma.
O levantamento destaca ainda despesas indiretas frequentemente ignoradas pelas companhias, entre elas perda de memória institucional, aumento do FAP (Fator Acidentário de Prevenção), sobrecarga de equipes e gastos com substituições temporárias.
Outro ponto identificado pela pesquisa envolve a concentração de adoecimentos em setores específicos, o que, segundo a Suridata, revela falhas estruturais de gestão. Barra afirma que lideranças despreparadas contribuem diretamente para o crescimento dos quadros de burnout e para recaídas após o retorno de funcionários afastados.
“O ambiente que adoeceu continua lá. E o ambiente, na maioria das vezes, tem nome e sobrenome”, afirma.
De acordo com o executivo, muitos gestores ainda associam produtividade à presença constante no trabalho e não conseguem identificar sinais de sofrimento emocional antes que a situação resulte em afastamento médico.
O cenário ocorre paralelamente ao avanço da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir riscos psicossociais e saúde mental no ambiente corporativo. As novas exigências estão valendo em caráter educativo desde maio de 2025, enquanto a fiscalização está prevista para começar em maio de 2026.
Para Barra, a regulamentação pode representar um marco importante para o mercado corporativo, desde que não seja tratada apenas como exigência burocrática.
“Se for tratada como mais um checklist regulatório, vai gerar documentos bem formatados e zero evolução em comportamento”, afirma.
O executivo também considera um erro limitar a discussão da saúde mental ao setor de recursos humanos, sem integrar liderança, operação e análise de dados dos planos de saúde corporativos.
A pesquisa da Suridata identificou ainda um comportamento considerado preocupante entre homens. Embora procurem menos consultas preventivas e exames de rotina, colaboradores do sexo masculino apresentam custos significativamente maiores quando chegam ao sistema de saúde com transtornos mentais diagnosticados.
Segundo os dados apresentados, homens com diagnóstico psiquiátrico registrado geram sinistro médio de R$ 13,4 mil, enquanto casos sem risco psiquiátrico apresentam média de R$ 2,1 mil, diferença de 538%.
“O homem historicamente evita o sistema de saúde. Quando ele finalmente chega a um atendimento psiquiátrico, normalmente o quadro já é mais grave”, afirma Mariana Brambilla.
O estudo reforça que a saúde mental deixou de ocupar apenas espaço em programas de benefícios e passou a influenciar diretamente a sustentabilidade das empresas.
Ignorar os sinais do adoecimento emocional no trabalho pode transformar um problema humano em uma crise estrutural dentro das organizações.






