Sobreviver ou Sucumbir: O Custo Real de Ignorar a Cibersegurança nas Pequenas e Médias Empresas Brasileiras

Relatório do Fórum Econômico Mundial revela que um único ataque cibernético pode consumir até quatro anos de lucro de uma PME e o Brasil está entre as regiões mais vulneráveis do planeta

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Por Ismael Junior | Arrow Security

2/9/20265 min read

"Não dou dinheiro para bandido." A frase, dita por Urubatan Helou, presidente da Braspress, resume a postura do empresário de 74 anos diante de um dos ataques cibernéticos mais devastadores sofridos por uma empresa brasileira em 2024. Na noite de 7 de julho, um ransomware invadiu o data center da transportadora e criptografou 280 servidores. Os hackers abriram uma sala de negociação exigindo resgate. Helou recusou. "Fizeram um grande estrago em nosso banco de dados. O estrago foi tão grande que, se tiver conserto, levará alguns anos", escreveu ele no LinkedIn, na madrugada seguinte ao ataque. "Aos 74 anos, não me curvarei a bandidos."

A Braspress, com 47 anos de história, quase 3 mil caminhões e 9 mil funcionários, conseguiu se recuperar em sete dias graças a backups realizados dois minutos antes da invasão, um exemplo raro de resiliência. Nem todas têm a mesma sorte. A fintech gaúcha Monbank perdeu R$ 4,9 milhões em um ataque que explorou vulnerabilidades no Sistema de Pagamentos Brasileiro. E desde julho de 2024, os ataques cibernéticos contra fintechs brasileiras já somam R$ 1,74 bilhão em desvios identificados.

Esses casos não são exceções. São sintomas de uma epidemia. O Global Cybersecurity Outlook 2026, publicado em janeiro pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com a Accenture, traz dados que deveriam tirar o sono de todo empresário brasileiro: 73% dos respondentes globais foram pessoalmente afetados por fraudes cibernéticas no último ano. Na América Latina, esse número salta para 77%. E as pequenas e médias empresas têm duas vezes mais probabilidade de apresentar níveis insuficientes de resiliência cibernética quando comparadas às grandes corporações.

Brasil na Zona de Perigo

A América Latina ocupa posições alarmantes no relatório. A região apresenta a maior escassez de habilidades cibernéticas do mundo, 65% das organizações relatam falta de competências críticas, índice pior que o da África Subsaariana. Apenas 12% das organizações latino americanas têm resiliência acima do mínimo, enquanto 25% estão claramente despreparadas.

Os números da Acronis reforçam a gravidade: o Brasil é o segundo país mais atacado por URLs maliciosas do mundo, com 13,2% das detecções globais, atrás apenas dos Emirados Árabes. O Acronis Cyberthreats Report H1 2025 revela ainda que o número de vítimas de ransomware aumentou 70% globalmente no primeiro semestre, com a manufatura liderando como setor mais atacado, 15% dos casos.

O dado mais revelador do Fórum Econômico Mundial: apenas 13% confiam na capacidade do governo de responder a ataques em infraestrutura crítica, a menor confiança global. PMEs brasileiras estão essencialmente sozinhas.

A Matemática da Destruição

O custo médio de um ataque significativo é de R$ 1,5 milhão. Para uma PME com faturamento de R$ 5 milhões e margem de 8%, isso representa quase quatro anos de lucro. E o custo direto é só o começo: somam se consultoria emergencial, investigação forense, multas da LGPD, até 2% do faturamento, processos judiciais e a inevitável perda de clientes.

O caso Jaguar Land Rover, citado no relatório do Fórum Econômico Mundial, ilustra o efeito cascata: um único ataque paralisou a produção por cinco semanas e afetou mais de 5.000 fornecedores, a maioria PMEs que viram seus negócios interrompidos sem aviso.

Como os Criminosos Entram

O Brasil registra 553 milhões de tentativas de phishing por ano, 1,5 milhão por dia, quase três por habitante, segundo a Kaspersky. O Acronis Cyberthreats Report H2 2024 confirma a tendência global: houve um aumento de 197% em ataques baseados em e-mail, com 50% dos usuários sendo alvo pelo menos uma vez no segundo semestre de 2024.

A inteligência artificial está acelerando a ameaça. Segundo a Acronis, ataques de engenharia social e BEC saltaram de 20% para 25,6% entre 2024 e 2025, impulsionados pelo uso de IA para criar mensagens fraudulentas cada vez mais convincentes. A barreira linguística que parcialmente protegia o Brasil foi eliminada: criminosos de qualquer lugar do mundo produzem mensagens em português impecável.

As vulnerabilidades de IA explodiram, 87% de aumento segundo o Fórum Econômico Mundial, com funcionários inserindo dados confidenciais em ferramentas como ChatGPT sem compreender os riscos. E 20% das fraudes envolvem ameaça interna, particularmente grave em PMEs com menor segregação de funções.

O Caminho da Sobrevivência

O caso Braspress ensina uma lição crucial: a empresa sobreviveu porque tinha backups íntegros realizados a cada dois minutos. Em sete dias, higienizou 280 servidores, 3.500 estações de trabalho e restaurou 100 TB de dados. Porém, segundo pesquisa da Nationwide Insurance citada pela Acronis, 68% das PMEs não possuem plano de recuperação de desastres. A maioria simplesmente não teria como se recuperar.

O relatório do Fórum Econômico Mundial revela padrões claros nas organizações resilientes. 99% têm liderança engajada em cibersegurança, não delegam o tema a pessoal de TI. 78% investem em capacitação de funcionários, contra apenas 15% das vulneráveis. 76% integram segurança nas compras, avaliando fornecedores e softwares antes de contratar.

PMEs não precisam contratar especialistas caros. Podem investir em treinamento básico, manter backups offline testados regularmente, contratar serviços gerenciados de segurança, MSSP, e participar de redes setoriais. O relatório mostra que 34% das grandes organizações oferecem orientação formal a empresas menores, PMEs inteligentes buscam esse suporte.

A Escolha é Agora

O Banco Mundial estima que reduzir incidentes cibernéticos graves aumentaria o PIB per capita em 1,5% em economias em desenvolvimento. Para o Brasil, onde PMEs representam 99% das empresas formais, o impacto agregado é imenso.

Urubatan Helou, aos 74 anos, não se curvou aos bandidos e salvou 47 anos de trabalho. A pergunta que todo empresário brasileiro precisa se fazer não é se pode pagar para investir em cibersegurança. É se pode pagar para não investir.

Fontes: Global Cybersecurity Outlook 2026, Fórum Econômico Mundial e Accenture, Acronis Cyberthreats Report H1 2025 e H2 2024, Kaspersky, CNN Brasil, Security Leaders e TechTudo.

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