Taxa de inovação industrial recua pelo terceiro ano consecutivo, aponta IBGE

Levantamento do IBGE em parceria com ABDI e UFRJ mostra retração contínua da taxa de inovação desde 2021, apesar do avanço nominal dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

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Por Redação InfoDot

3/23/20266 min read

Mudanças estruturais na economia e nos modelos produtivos influenciam diretamente a capacidade das empresas de se manterem competitivas ao longo do tempo. Em contextos de transformação tecnológica e oscilações macroeconômicas, acompanhar o ritmo da inovação ajuda a compreender tendências e desafios enfrentados pela indústria. Dados recentes reforçam esse movimento ao revelar a trajetória do indicador inovador no país.

Divulgada nesta quinta-feira, 19/3, pesquisa conduzida pelo IBGE em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e a Universidade Federal do Rio de Janeiro aponta que a taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas ficou em 64,4% em 2024. O resultado representa a terceira queda consecutiva desde o início da série histórica, em 2021, além de configurar o menor nível dos últimos quatro anos.

Na comparação anual, o percentual é ligeiramente inferior ao registrado em 2023, quando o índice foi de 64,6%, e permanece 6,1 pontos percentuais abaixo do pico observado em 2021, de 70,5%. As informações integram a Pesquisa de Inovação (PINTEC) Semestral 2024: Indicadores Básicos, levantamento experimental que monitora a conduta inovativa das empresas, seus investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e os principais obstáculos enfrentados nesse processo.

Mesmo com o recuo do indicador geral, o analista da PINTEC, Flávio Peixoto, destaca que o cenário reflete a complexidade e a dinâmica de longo prazo da inovação. Segundo ele, a taxa permaneceu estável na comparação com 2023, enquanto as empresas de maior porte continuaram sendo relativamente mais inovadoras.

Fatores como o câmbio e a formação bruta de capital fixo exercem influência sobre o indicador, mas a inovação apresenta um ciclo de maturação que nem sempre produz resultados imediatos. Em determinados períodos, um grande número de empresas pode ser considerado inovador e, no ano seguinte, elas não deixam necessariamente de atuar nesse campo, apenas não introduzem novos produtos ou processos naquele momento.

O levantamento reforça que o porte empresarial segue como variável determinante para a capacidade inovadora. Entre as companhias com 100 a 249 pessoas ocupadas, a taxa de inovação foi de 59,8%. O índice sobe para 65,7% no grupo de 250 a 499 pessoas ocupadas e atinge 75,4% entre aquelas com 500 ou mais funcionários.

De acordo com o analista, a média da indústria como um todo esconde polos de excelência. “Quando a gente olha a série, vemos uma tendência de queda. Mas os setores são afetados de formas distintas por diversas variáveis, os preços da economia, PIB, investimento, câmbio, juros. No conjunto, na média, dá esse indicador de 64,4%. Mas o ideal é olhar por atividade, que permite uma percepção um pouco mais específica desse movimento em termos de atividades econômicas.”

Entre os segmentos industriais, a fabricação de produtos químicos liderou o ranking de inovação em 2024, com taxa de 84,5%, seguida pela fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (82,1%) e pela fabricação de móveis (77,1%). Na ponta oposta, a fabricação de produtos do fumo registrou o menor índice, de 29,8%.

Considerando o tipo de inovação, as empresas apresentaram desempenho mais elevado em processos de negócios, com taxa de 51,9%, superior à inovação em produtos, que alcançou 45,2%. O percentual de companhias que introduziram processos novos ou aprimorados é o maior desde o início da série histórica e representa crescimento em relação a 2023, quando foi de 51%. Dentro dessa categoria, destacaram-se métodos de organização do trabalho, tomada de decisão e gestão de recursos humanos, adotados por 31,8% das empresas.

Historicamente mais sensível a impactos negativos, a inovação em produtos tende a ser mais complexa do que a inovação em processos. A criação de um novo bem exige alterações funcionais relacionadas ao uso, às matérias-primas e aos softwares, além de ser influenciada pela taxa de câmbio, que pode tornar a importação mais vantajosa e desestimular o desenvolvimento local.

Entre as empresas que inovaram em produtos, 45,2% introduziram um bem novo ou substancialmente aprimorado em 2024, o menor percentual desde 2021, quando o indicador foi de 50,5%. Nesse quesito, destacaram-se a fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos, com 69,5%, e a fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos, com 67,5%.

Apesar da retração da taxa de inovação, os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento realizados pelas empresas industriais inovadoras cresceram em 2024. Os dispêndios somaram R$ 39,9 bilhões, aumento nominal de 4,4% em relação aos R$ 38,2 bilhões registrados em 2023.

A maior parte desse montante, equivalente a 85,4%, foi destinada à indústria de transformação, que investiu R$ 34,1 bilhões. Já as indústrias extrativas responderam por 14,6%, com R$ 5,8 bilhões. Ainda assim, o analista alerta que o investimento em P&D não é sinônimo imediato de inovação, sendo uma atividade estruturalmente concentrada nas grandes empresas.

Essa concentração aparece nos dados: companhias com 500 ou mais pessoas ocupadas foram responsáveis por 87,4% do total aplicado em P&D em 2024, proporção superior aos 84,6% observados em 2023. Em contrapartida, a participação das empresas com 100 a 249 pessoas ocupadas recuou de 7,9% para 4,8% no mesmo período.

Do total investido, 86% tiveram origem em recursos próprios das empresas. O setor público respondeu por 8% do financiamento, instituições privadas por 5% e apenas 1% veio de fontes externas. Na distribuição dos investimentos, destacaram-se as indústrias extrativas (14,6%), a fabricação de veículos automotores (13,6%) e a fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (12,3%).

O acesso a instrumentos públicos de apoio à inovação aumentou em 2024. Entre as empresas inovadoras, 38,6% recorreram a algum mecanismo de incentivo, percentual superior aos 36,3% registrados em 2023. O incentivo fiscal à pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica previsto na Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005) permaneceu como o mais utilizado, contemplando 28,9% das empresas.

Embora as companhias de grande porte continuem liderando o uso desse benefício, com 46,4% de adesão, houve crescimento relevante entre empresas de médio porte, que passaram de 27,6% em 2023 para 35,6% em 2024. A pesquisa também registrou aumento na proporção de empresas que, mesmo sem utilizar o incentivo, demonstraram interesse em fazê-lo, alcançando 31,5%.

No campo das parcerias, o estudo indica que o tamanho empresarial influencia diretamente a cooperação para inovação. Mais da metade das empresas inovadoras com 500 ou mais pessoas ocupadas, ou 50,3%, estabeleceram algum tipo de colaboração, percentual superior ao observado entre aquelas com 100 a 249 pessoas ocupadas, de 24,5%. Os fornecedores foram os parceiros mais citados, mencionados por 27,1% das empresas que cooperaram. O setor de metalurgia registrou o maior índice de cooperação, de 47,8%.

Quase metade das empresas inovadoras, equivalente a 47,8%, relatou ter enfrentado obstáculos para inovar em 2024. A instabilidade econômica foi o principal entrave apontado, mencionada por 44,5%, seguida pela limitação de recursos internos (43,0%), intensificação da concorrência (42,1%) e dificuldades para estabelecer parcerias (35,7%).

Para os próximos anos, as perspectivas seguem predominantemente positivas. Em relação a 2025, 96,4% das empresas declararam intenção de aumentar ou manter os investimentos em P&D em comparação a 2024. A expectativa de manutenção é mais elevada entre companhias de menor porte, atingindo 71,7% na faixa de 100 a 249 pessoas ocupadas. Considerando as projeções para 2026, a proporção de empresas que pretendem elevar ou sustentar os dispêndios sobe para 98,5%.

Em um cenário marcado por oscilações econômicas e transformações tecnológicas, a capacidade de converter investimentos em resultados inovadores tende a ser determinante para o nível de competitividade da indústria brasileira.

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