Tratamento combinado abre novas perspectivas para pacientes com câncer de rim

Avanços apresentados em simpósio internacional indicam redução de até 30% no risco de progressão da doença e reforçam o papel das terapias combinadas no cuidado oncológico.

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Por Redação InfoDot

3/17/20263 min read

A evolução da medicina costuma acontecer em etapas silenciosas, muitas vezes percebidas apenas quando os resultados começam a mudar o destino dos pacientes. No campo da oncologia, cada nova evidência científica representa uma possibilidade concreta de ampliar o controle da doença e prolongar a vida. Nesse contexto, estudos recentes trouxeram novos caminhos para o tratamento do câncer de rim.

Pesquisas apresentadas no American Society of Clinical Oncology Genitourinary Cancers Symposium, realizado em fevereiro, em São Francisco, destacaram avanços relevantes tanto no cenário pós-cirúrgico quanto nos casos de doença avançada. Os achados reforçam uma tendência consolidada na oncologia moderna, baseada na combinação de estratégias terapêuticas para ampliar o controle tumoral e aumentar a sobrevida.

No Brasil, o câncer renal registra mais de 10 mil novos casos por ano, com maior incidência entre homens e diagnóstico geralmente a partir da sexta década de vida. Embora menos frequente do que tumores como mama ou próstata, a doença costuma evoluir de forma silenciosa nas fases iniciais, sendo identificada muitas vezes em estágios mais avançados. A discussão ganha ainda mais relevância com a proximidade do Dia Mundial do Rim, celebrado em 12 de março, que reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

O primeiro estudo apresentado no simpósio envolveu mais de 1.800 pacientes e avaliou uma nova abordagem terapêutica após a cirurgia. Até então, o tratamento padrão aprovado nesse contexto era a imunoterapia com pembrolizumabe, que estimula o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais remanescentes.

A pesquisa comparou essa estratégia isolada com a combinação de nivolumabe, outro imunoterápico, associado ao belzutifan, um inibidor do fator induzível por hipóxia. Esse mecanismo tem papel central no crescimento tumoral ao estimular a formação de novos vasos sanguíneos que nutrem o tumor, favorecendo crescimento, invasão e disseminação metastática. Ao bloquear essa via, reduz-se a capacidade de adaptação e progressão da doença.

Os resultados demonstraram que a combinação reduziu em 28% o risco de progressão da doença ou morte em comparação com o tratamento padrão, mesmo com aumento considerado manejável de efeitos adversos. Trata-se do primeiro avanço significativo nesse cenário desde a incorporação da imunoterapia como padrão global, abrindo caminho para uma nova estratégia combinada no tratamento adjuvante do câncer renal.

O segundo estudo incluiu mais de 750 pacientes com doença avançada que já haviam apresentado falha a tratamentos anteriores. Nesse caso, a medicação cabozantinibe, utilizada como referência, foi comparada à combinação de lenvatinibe, um inibidor da via do VEGF, com o belzutifan.

O VEGF, ou fator de crescimento endotelial vascular, representa uma das principais vias responsáveis pela formação de novos vasos sanguíneos que alimentam o tumor. O bloqueio simultâneo de diferentes mecanismos relacionados à vascularização mostrou-se mais eficaz do que a estratégia tradicional isolada.

A combinação terapêutica reduziu em 30% o risco de progressão da doença ou morte. Após dois anos de acompanhamento, praticamente o dobro dos pacientes submetidos ao tratamento combinado permanecia vivo e sem progressão da doença em comparação com o grupo controle.

Os dois estudos reforçam um conceito cada vez mais consolidado na oncologia, o bloqueio mais abrangente das vias que sustentam o crescimento tumoral pode gerar ganhos clínicos relevantes. No caso do câncer renal, atacar simultaneamente mecanismos de estimulação imunológica e de formação de vasos sanguíneos representa um novo passo no controle da doença.

Em um cenário em que o câncer de rim ainda é frequentemente diagnosticado em fases avançadas, avanços como esses ampliam perspectivas terapêuticas e oferecem novas possibilidades aos pacientes. No mês em que se celebra o Dia Mundial do Rim, os dados apresentados no simpósio reforçam que ciência, inovação e pesquisa clínica continuam sendo pilares fundamentais para transformar o cuidado oncológico e salvar vidas.

A ciência avança quando o conhecimento se traduz em esperança real para quem precisa de tratamento.

Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.

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