

Trocar de emprego no Brasil sai muito mais caro do que parece
Pesquisa “Perdidos na Transição” identifica três ciclos críticos do trabalho e mostra que o Brasil é o mais ineficiente entre mercados analisados.
MERCADOECONOMIA
Por Redação InfoDot
12/4/20254 min read
Observar as rotas profissionais é também olhar para os vazios que surgem entre uma ocupação e outra. Nessas interrupções, o tempo passa sem produtividade enquanto talentos buscam recolocação. É justamente nesses intervalos que, segundo um novo levantamento, a economia brasileira acumula perdas expressivas.
De acordo com a pesquisa “Perdidos na Transição”, conduzida pela multinacional de educação Pearson, o Brasil deixa de gerar R$ 1,08 trilhão por ano em razão de falhas nos processos de aprendizado associados a três momentos de transição ao longo do ciclo laboral. O impacto compromete aproximadamente 9% do Produto Interno Bruto (PIB) anual de 2024, a maior proporção registrada entre todas as economias avaliadas.
O estudo analisou oito mercados, englobando seis países, além dos estados norte-americanos da Califórnia e Nova York. Na comparação percentual em relação ao PIB, o Brasil lidera com folga. Em seguida aparecem Califórnia, com 4,86%, Canadá, com 4,76%, Estados Unidos, com 4,04%, e Nova York, com 3,92%.
Embora a tendência global indique crescimento das perdas em função da disrupção tecnológica e da automação, o levantamento destaca uma particularidade brasileira, o maior prejuízo ocorre no intervalo entre a saída de um emprego e a obtenção de outro. Essa etapa concentra perdas estimadas em R$ 701 bilhões por ano, o equivalente a 65% de todo o montante desperdiçado no país.
Segundo a Pearson, o resultado evidencia a dificuldade de recolocação do trabalhador brasileiro, que leva, em média, 42 semanas para encontrar uma nova vaga após encerrar um contrato. O período é significativamente superior ao observado em outros mercados, como Canadá, com média de 18 semanas, e Reino Unido, onde a recolocação costuma ocorrer em cerca de 32 semanas.
A estimativa dos pesquisadores indica que, caso esse período de busca por trabalho pudesse ser reduzido em 20%, os ganhos adicionais para a economia alcançariam R$ 140 bilhões por ano.
Para a CEO da Pearson no Brasil, Cinthia Nespoli, o problema está relacionado a uma desconexão entre formação e necessidades do mercado. “Quando olhamos para o resultado, conseguimos ver que existe um descompasso entre o que a educação e os mercados entregam às empresas, versus aquilo que a economia demanda”, afirmou em entrevista à CNN Money.
A executiva também chamou atenção para o contingente de jovens fora do sistema produtivo. Segundo ela, aproximadamente um quinto da população entre 18 e 24 anos não trabalha nem estuda, grupo conhecido como “nem-nem”, que impacta diretamente a dinâmica econômica. Para Nespoli, investimentos em educação dessa parcela poderiam gerar ganhos relevantes ao mercado nacional.
Outro ponto crítico apontado pela pesquisa é a transição provocada pela automação. Esse fator responde por prejuízos estimados em R$ 241 bilhões ao ano, o que representa 22% das perdas totais registradas anualmente.
O cenário se agrava diante do risco de substituição tecnológica. O levantamento indica que cerca de 32% dos postos de trabalho no país estão sob alto risco de automação, proporção superior à observada em economias como Austrália, onde o índice é de 26%, e Estados Unidos, com 22%.
Para Nespoli, a experiência internacional pode servir de guia para a preparação do mercado brasileiro. “A gente já sabe o que gerou perda maior em outras economias, estamos num momento de maturidade tecnológica que proporciona a oportunidade de se preparar melhor. O intuito é trazer para o Brasil mais investimento e interesse na parte de requalificação, para estar adiante, considerando que temos a vantagem de uma população mais jovem.”
Mesmo com um impacto financeiro menor, a etapa de transição entre educação formal e ingresso no mercado de trabalho também aparece no estudo como um desafio significativo, pois pode comprometer a renda dos indivíduos ao longo da vida profissional.
Ao final, o levantamento aponta duas prioridades para os formuladores de políticas públicas. A primeira envolve o enfrentamento do desemprego estrutural por meio da criação de programas de encaixe profissional, requalificação contínua e mecanismos que acelerem a reinserção no mercado. A segunda recomendação é iniciar desde já uma preparação consistente para a automação, sem aguardar que o avanço tecnológico se torne a principal fonte de disrupção econômica.
Entender essas transições é reconhecer que o tempo fora do trabalho também pesa sobre o futuro do país.






