Um telefonema, um clique: assim os brasileiros perderam bilhões para criminosos

Levantamento da Global Anti-Scam Alliance mostra que uma em cada quatro pessoas que interage com uma fraude digital perde dinheiro, dados pessoais ou ambos.

TECNOLOGIAECONOMIA

Por Redação InfoDot

8/7/20266 min read

A fraude digital deixou de ser um risco pontual para se tornar parte da rotina financeira, atingindo quase toda a população adulta do país. Um levantamento da Global Anti-Scam Alliance (GASA) dimensiona esse cenário: os brasileiros perderam R$ 21,24 bilhões em golpes no último ano.

Segundo a pesquisa, um quarto das pessoas que chegou a interagir com algum tipo de fraude teve dinheiro, informações pessoais ou ambos roubados. A exposição a esse tipo de crime é praticamente universal: oito em cada dez adultos brasileiros receberam pelo menos uma tentativa de golpe em 2026, uma média de 202 abordagens por pessoa, o que representa cerca de 34,5 bilhões de tentativas em todo o território nacional.

Compras falsas, promessas de dinheiro inesperado e ofertas de emprego lideram a lista dos golpes mais comuns, mas fraudes ligadas a investimentos, boletos, relacionamentos amorosos e pedidos de doação também figuram entre as armadilhas mais recorrentes. A capacidade dos criminosos de convencer suas vítimas ajuda a explicar a dimensão do prejuízo: mais da metade dos brasileiros que recebeu uma tentativa de golpe acabou interagindo com ela, e dois em cada cinco admitem desconfiar da própria habilidade de reconhecer uma fraude. Entre os que perderam dinheiro, 34% relatam ter passado pela mesma situação mais de uma vez, e para 26% das vítimas bastaram poucos minutos para que os valores desaparecessem. Em média, cada pessoa lesada perdeu R$ 1.287, com uma parcela relevante registrando perdas acima de R$ 3 mil.

"No TikTok, vi um vídeo perfeito que me levou a um site idêntico ao de uma empresa famosa. Tomei o cuidado de não usar o link do TikTok e procurei o site oficial por conta própria, mas ele parecia exatamente igual. Caí no golpe porque achei que poderia comprar sem medo", relata uma das vítimas ouvidas pelo estudo.

"Recebi uma ligação de uma instituição de caridade que eu já havia apoiado antes. Eles pediram ajuda, então fiz uma transferência. Mais tarde, comentei o assunto com uma pessoa que eu conhecia e que trabalhava lá, e ela me disse que era um golpe e que muitas outras pessoas também haviam sido vítimas. Depois, vi que a instituição já havia publicado alertas nas redes sociais, mas eu não tinha visto", conta outra participante da pesquisa.

Ligações telefônicas e aplicativos de mensagens instantâneas seguem como as principais portas de entrada dos golpistas no país. Entre as vítimas, 53% relatam terem sido contatadas por telefone em 2026, seguidas pelos aplicativos de mensagens (49%), e-mail (39%), SMS (38%) e redes sociais (28%). Plataformas com recursos de mensagem direta concentram 71% de todas as tentativas registradas nos últimos doze meses, com destaque para WhatsApp (64%), Gmail (32%), Instagram (22%), Facebook (17%) e Google (13%). No momento de transferir o dinheiro, as vítimas recorrem sobretudo a transferências bancárias tradicionais ou via TED/DOC (33%), pagamentos instantâneos como o Pix (32%) e cartões de débito ou crédito (16%).

Nem todos caem no conto: dois em cada cinco brasileiros se dizem confiantes em identificar um golpe, e 37% afirmam já ter reconhecido sinais de alerta comuns. Os principais indícios apontados foram mensagens ou solicitações que pareciam ilegítimas (43%), o hábito de não responder a contatos não solicitados (42%), origem desconhecida ou inesperada da abordagem (38%), sinais clássicos de fraude como urgência, ameaças ou pedidos de sigilo (37%) e propostas boas demais para serem verdadeiras (37%). Justamente esse último ponto, a desconfiança diante de ofertas exageradas, aparece como o principal motivo (31%) para os brasileiros não chegarem a enviar dinheiro após o contato com um golpista.

A maior parte das vítimas só percebe o golpe sozinha: sete em cada dez descobriram a fraude por conta própria, enquanto 22% tomaram conhecimento por meio da mídia ou de notícias. Experiências anteriores com esse tipo de crime também funcionam como aprendizado, citadas por 37% dos entrevistados como fator que ajuda a reconhecer ou evitar novas tentativas. Depois de identificar o golpe, 64% das vítimas relatam o ocorrido a amigos ou familiares, 51% acionam o provedor da plataforma envolvida e 46% procuram o banco ou a instituição financeira, no total, 82% dos brasileiros que enfrentaram um golpe nos últimos doze meses fizeram algum tipo de denúncia. Entre as razões que explicam o sucesso dos golpistas, as vítimas destacam a verossimilhança da abordagem (47%), a falsa sensação de segurança no pagamento (41%), a simulação de organizações legítimas (39%) e ofertas que pareciam vantajosas demais para recusar (39%).

Na hora de denunciar, as organizações comerciais concentram a maior parte das queixas, com 56% dos casos, à frente das plataformas sociais (41%) e das autoridades (38%). Dentro do grupo comercial, 42% dos entrevistados procuraram o próprio banco ou provedor de pagamento; entre as autoridades, 30% acionaram a polícia, 12% órgãos de defesa do consumidor, 9% sites nacionais de denúncia e 7% o regulador financeiro; já nas redes, 29% recorreram a familiares ou amigos, 16% à própria plataforma e 7% a sites de avaliação. Apesar do esforço em denunciar, apenas uma em cada cinco pessoas que relata perdas financeiras a uma organização consegue recuperar o valor, ainda que parcialmente, a resposta mais comum (36%) foi a de que nenhuma medida havia sido tomada.

A verificação prévia é quase unânime: 97% dos brasileiros dizem adotar ao menos uma prática de checagem antes de confiar em uma oferta, sendo a pesquisa de avaliações em outros sites a mais citada, por 42% dos entrevistados. Consultar amigos e familiares (23%), optar por métodos de pagamento com possibilidade de reembolso, como cartão de crédito ou PayPal (22%), e ligar diretamente para a empresa (18%) completam as estratégias mais eficazes. Quanto à responsabilidade pela proteção dos usuários, 26% apontam as próprias plataformas online como principais responsáveis, seguidas por governo (17%), responsabilidade individual (14%), polícia (11%) e provedores de hospedagem (11%); no total, 54% dos brasileiros atribuem esse papel a empresas comerciais e 28% a órgãos públicos.

A avaliação sobre o desempenho de cada instituição, no entanto, revela distâncias em relação à expectativa da população. A polícia é a que mais se aproxima do que os brasileiros esperam em termos de prevenção e resolução de golpes, enquanto governo e plataformas online aparecem mal avaliados nesse quesito. Os bancos lideram a avaliação geral, com destaque para a facilidade de denunciar fraudes (51%), ações de conscientização (49%) e o bloqueio de pagamentos suspeitos (48%). A expectativa em relação a essas instituições é alta: 61% dos brasileiros acreditam que os bancos deveriam sempre reembolsar vítimas de golpes, percentual maior do que o registrado para empresas de cartão de crédito (59%) e provedores de pagamento (53%).

A preocupação com esse tipo de crime segue estável: 67% dos brasileiros afirmam temer cair em um golpe, o mesmo índice registrado em 2025. Entre quem já foi vítima, no entanto, os efeitos vão além do prejuízo financeiro, com relatos frequentes de estresse, ansiedade, perda de confiança e dificuldades econômicas.

Diante dos números, o desafio prático passa menos por eliminar o contato com tentativas de fraude, praticamente inevitável, e mais por reduzir a velocidade e a confiança com que o brasileiro reage a elas.

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