

Um terço das empresas registra inadimplência no consignado CLT, aponta Serasa
Levantamento com 550 companhias aponta erros sistêmicos como principal causa da inadimplência registrada desde março.
MERCADOECONOMIA
Por Redação InfoDot
12/5/20254 min read
Entender as engrenagens do crédito é também enxergar os riscos que surgem no caminho da expansão financeira. Com a ampliação do acesso ao consignado privado, desafios operacionais passaram a se refletir diretamente na inadimplência das empresas. É o que revela um novo levantamento do Serasa Experian.
Um estudo realizado com 550 organizações aponta que cerca de um terço das empresas participantes do programa Crédito do Trabalhador apresentou episódios de inadimplência desde março, mês de lançamento da iniciativa voltada à ampliação do consignado para o setor privado.
Criado para facilitar o acesso ao crédito, o programa abrange trabalhadores com vínculo CLT, empregados domésticos, trabalhadores rurais, profissionais de aplicativos e Microempreendedores Individuais (MEI), permitindo a contratação direta pela Carteira de Trabalho Digital.
Apesar do alcance da proposta, o levantamento revelou falta de familiaridade das empresas com o modelo. Segundo os dados, 46% das companhias afirmam não conhecer ou não saber explicar como a modalidade funciona.
Entre as 297 empresas que dizem ter algum nível de conhecimento sobre a plataforma, apenas 25,8% consideram dominar bem as regras do consignado. Outras 28,2% relatam compreensão apenas básica. As empresas de médio porte são as que mais apontam dificuldades, seguidas pelas pequenas, que registram 28,6% de problemas, e pelas grandes, com 24,3%.
No recorte regional, a inadimplência é mais elevada no Nordeste, com índice de 42,1%, seguida pelo Sudeste, onde chega a 33,3%. Quando analisados os setores econômicos, varejo apresenta o maior percentual de ocorrências, com 48% dos casos, seguido pela indústria, com 38,6%.
De acordo com o diagnóstico do Serasa, a maior parte dos episódios não está relacionada à incapacidade de pagamento dos trabalhadores. A pesquisa indica que 65% das ocorrências decorrem de falhas sistêmicas ou operacionais.
Os problemas mais citados incluem atrasos no repasse de informações entre departamentos de recursos humanos e instituições financeiras, responsáveis por 30% dos casos. Também foram apontadas falhas de integração com o eSocial e a Dataprev, que representam 22% das ocorrências, além de dificuldades no desconto em folha, responsáveis por 13%.
Outros 33% dos episódios estão associados a dificuldades efetivas de pagamento por parte dos funcionários.
Antes da criação do Crédito do Trabalhador, o consignado privado funcionava por meio de convênios firmados diretamente entre empresas e bancos, cabendo ao empregador estabelecer regras como data de fechamento da folha, repasses e processos de conciliação.
Com o novo formato, as instituições financeiras passam a aderir ao sistema e os empregados solicitam o crédito pela Carteira de Trabalho Digital, escolhendo livremente o banco. A empresa apenas recebe a notificação para realizar o desconto em folha, limitado a 35% do salário.
Para que a operação aconteça de forma adequada, é necessário que as companhias tenham cadastrado previamente no plataforma Emprega Brasil as informações exigidas para registro no eSocial. O acesso a esses dados por parte dos bancos ocorre exclusivamente por meio da Dataprev.
Sobre a complexidade do processo, Délber Lage, CEO da Salaryfits, empresa do grupo Serasa, afirmou ao Globo: “O RH passa a ter um conjunto de obrigações gigantesco, com muitas rotinas operacionais. Os gestores precisam conhecer profundamente a folha de pagamento, saber o dia de corte, buscar a conciliação, pagar as guias do consignado. Muda muito a rotina do RH”.
Outro fator que eleva a complexidade operacional é a possibilidade de qualquer banco ofertar empréstimos a qualquer empresa. Segundo estudo da Salaryfits, 67% das novas operações foram realizadas por instituições que não mantinham relacionamento anterior com as companhias contratantes, ampliando significativamente o volume de participantes e de transações dentro do sistema.
As dificuldades iniciais também se refletem na evolução das taxas de juros. Dados do Banco Central mostram que a taxa média anual do consignado privado era de 44% em março. Em outubro, o percentual subiu para 59%.
A expansão do acesso fez com que trabalhadores que anteriormente não utilizavam o consignado passassem a buscar crédito, muitos deles com pontuação de risco mais elevada. Uma pesquisa anterior do Serasa identificou que 44% dos novos tomadores possuíam score de 400 ou inferior.
Segundo Lage, os bancos ainda estão ajustando suas políticas de precificação diante do desconhecimento sobre o perfil das empresas e dos trabalhadores envolvidos. Ele afirma que o cenário combina riscos mais altos, falhas operacionais e custos gerados pela assimetria de informações.
Apesar do contexto inicial de instabilidade, o executivo avalia que, em um período de 12 a 18 meses, o sistema tende a ganhar mais eficiência, o que pode resultar em correção das taxas praticadas. A expectativa é que haja maior segmentação dos perfis de empresas e trabalhadores, permitindo a aplicação de juros ajustados ao nível de risco de cada grupo.
Outro ponto citado como potencial redutor do risco é a futura regularização do uso do FGTS como garantia, seguindo pendente de definição pelo governo.
O amadurecimento do consignado privado dependerá do equilíbrio entre inclusão financeira, segurança operacional e capacidade de adaptação das empresas.






